6.8.14

Capítulo Sete






– ONDE FUI me meter – resmungou Demi, sem nem mesmo tentar disfarçar a irritação em seu tom. Ele encurralara, beijara até incitar um monte de hormônios dolorosos e agira como um especialista. Mas que droga, o sujeito a deixara úmida e desesperada, colocara a mão no traseiro dela uma hora depois de terem se conhecido.
Joseph Jonas era um adversário perigoso.
– Em um sonho que está se realizando? – respondeu Miley distraidamente.
Demi interrompeu seu passeio agitado pelo cômodo para encarar a amiga, que estava toda segura e confortável no sofá, cercada por um monte de livros de bolso. Miley não notou, é claro, afinal estava absorta analisando a foto sensual de Joe na contracapa de um livro.
– Você chama isso de sonho? – quis saber Demi, enfiando as mãos no cabelo. O fato de seus dedos deslizarem por fios macios como seda ainda a chocava, mas não o suficiente a ponto de impedi-la de surtar.
Miley suspirou e largou o livro que estava cobiçando. Tal como Demi, ela ainda estava com a roupa de ioga depois da aula semanal de ambas.
– Deixe-me perguntar algumas coisas, está bem?
E Demi tinha escolha? Sem querer contrariar a amiga, sob o risco de chateá-la, ela abanou a mão em concordância.
– Quando você conheceu a equipe da revista Risqué, eles perguntaram coisas sobre seu ponto de vista, sobre quem ou o quê você queria ser, lembra-se?
– Sim, eu disse que queria me tornar visível. Ficar tão segura, forte e...
– E sexy. Como uma heroína de romance. O tipo de mulher que poderia dominar um sujeito e fazê-lo implorar.
Demi franziu o nariz e decidiu parar de compartilhar tantas coisas com Miley. A amiga tinha o péssimo hábito de jogar as coisas na cara dela.
– Tudo bem, sim, essa era minha visão da coisa. Mas isso era algo que eu queria para minha aparência. “Parecer” não se traduz instantaneamente em “ser”, sabe.
Miley levou o dedo indicador ao lábio. Mas, em vez de roê-lo, ela balançou a cabeça, baixou a mão, sem mordiscar a unha, e aprumou os ombros.
– Essa é sua chance, Demi. Você fica dando passos em direção ao seu objetivo, mas nunca faz a volta para a linha de chegada. Você adorou a transformação, mas nem estava cogitando fazê-la até eu a obrigar por causa da sua carreira. Você é uma crítica literária incrível, mas não queria nem mesmo que as pessoas soubessem disso, até deixar escapar acidentalmente durante a entrevista para a Risqué.
Aonde aquilo ia chegar? Demi não tinha certeza, mas sabia que não estava gostando. Esforçando-se para não franzir a testa, ela se jogou em sua poltrona favorita e colocou uma almofada no colo. Apertando-a de encontro à barriga como um cobertorzinho inseparável de uma criança, ela meneou a cabeça para indicar que Miley podia prosseguir.
– Você sempre teve uma quedinha por esse escritor, certo?
Demi enrijeceu os ombros. Droga. Ela não era a professora mais jovem da equipe da Rosewood à toa. Sabia exatamente aonde Miley pretendia chegar.
– Você quer que as coisas aconteçam, mas não é proativa, você é reativa.
Ai.
– Você está assistindo a aulas de psicologia demais – murmurou Demi.
– Bem, dã, sou graduada em psicologia. Isso não muda o fato de que você tem uma oportunidade de ouro para satisfazer sua maior fantasia. Você quer provar que é uma mulher forte e sexy? Aceite o desafio desse cara.
Depois, coloque-o no devido lugar.
– Ah, claro, como se eu tivesse uma chance de fazer isso.
– Por que não? Olhe-se no espelho, Demi. A sua aparência é de uma mulher que poderia deixar um sujeito de quatro. Você é sensual. E Joseph Jonas obviamente a deseja.
A velha Demi teria revirado os olhos e zombado da insolência de ao menos imaginar que Joseph Jonas a queria em sua cama por qualquer razão que não fosse vencer a aposta. Mas a nova Demi, aquela que pressionara seu centro ávido e úmido contras os músculos rijos da coxa dele em uma tentativa desesperada de obter alívio, acreditava que ele a desejava de fato, e estava totalmente atraído por ela. Ah, ela sabia que a atração era puramente física, baseada apenas na máscara da transformação que ele vira. Não importava.
Aquela era a mais louca das sensações. Intensa, sólida e só um pouquinho assustadora.
– Você queria ser visível, agora você é. A hora é essa. Então... O que vai fazer a respeito? – desafiou Miley.
– Só porque ele sente atração por mim não quer dizer que o poder seja meu, sabe. Ele está baseando toda essa competição em uma premissa de luxúria versus intimidade.
– Você acredita em seu posicionamento?
– É claro. Sexo sem intimidade é vazio. Pode ser rápido e sensual, mas não vai durar. Não há um terreno comum, nada além de instintos primitivos.
Miley assentiu, então pegou a obra mais recente de Joe, a foto no livro encarando Demi. Aqueles olhos azuis perversos encararam de volta, fazendo o estômago de Demi se contrair de luxúria. Ela se lembrou da voz dele, grave e rouca, enquanto a seduzia verbalmente. Do sabor dele, quente e inebriante na língua dela. Do toque das mãos dele enquanto explorava seu corpo. O desejo sexual surgiu, incitando-a a fazer o que fosse necessário para que pudesse sentir o calor úmido da boca dele outra vez.
– Você acha que tem coisas em comum o suficiente com esse sujeito para construir intimidade?
– Eu... – A negação automática esmoreceu. Intimidade requeria um laço além do sexo. Será que eles tinham alguma coisa em comum para poder construir isso? Ambos amavam livros, obviamente. Ela havia adorado discutir literatura com ele, ouvir mais sobre seu processo de criação. E ele não ficara intimidado pelo intelecto dela. Se Demi causara alguma coisa, fora atração.
– Pelo seu silêncio, vou considerar que vocês têm o suficiente para construir alguma coisa – disse Miley, com uma risadinha. – Então o único problema real são as consequências.
– Tipo o quê?
– Tipo se apaixonar.
Demi ficou de queixo caído e, pelo que podia se lembrar, era a primeira vez que sua mente ficava vazia por causa do choque.
– Você acha que ele poderia se apaixonar por mim? – Ela finalmente encontrou voz para perguntar.
Miley franziu a testa, então suas bochechas de boneca ficaram coradas.
– Eu quis dizer, você se apaixonar por ele – murmurou ela.
Demi explodiu em gargalhadas.
– Tudo bem, obviamente você acha que é uma ideia maluca – disse Miley, em um tom irritado. – Eu não sei como você pode ter certeza de que não aconteceria, no entanto.
Ah, claro, talvez, se Demi acreditasse em contos de fadas, ela acharia possível. Mas era esperta demais para isso.
– Por mais que Joe seja sensual e talentoso – disse ela, entre risadinhas –, ele definitivamente não é do tipo por quem você deve se apaixonar.
Juro, isso não vai ser um problema.
Miley bufou, então deu de ombros.
– Então a única pergunta que falta é: você consegue entrar em um relacionamento puramente sexual com esse sujeito sabendo que é apenas físico? Isso não respalda a opinião dele sobre luxúria?
– É claro que não – protestou Demi. – A luxúria é para encontros de uma noite só. Ele já condenou o próprio argumento ao propor um caso com duração de um mês.
– Então não tem como você perder?
Demi pensou no assunto. Vencer a aposta, consolidar sua carreira como crítica literária e se tornar autoconfiante o suficiente para garantir que conseguiria sua promoção no trabalho. E potencialmente o sexo mais incrível do mundo com o homem mais lindo que já conhecera.
– Definitivamente não tem como eu perder – concordou ela. Era como o Natal, seu aniversário e o Dia dos Namorados, tudo transformado em um presente sexualmente carregado. Como ela seria capaz de resistir?
Meia hora depois, Miley foi embora e Demi resistiu à ânsia de bater no peito e dar um grito de Tarzan. Demetria Devonne, supercrítica literária. Capaz de seduzir um escritor sensual com uma única aposta. Ela sentia como se pudesse enfrentar Joseph Jonas, garantir orgasmos múltiplos para si e pular sobre altas pilhas de livros com um único salto.
Flutuando naquela sensação, ignorou facilmente a vozinha de escárnio em sua cabeça e seguiu corredor abaixo rumo ao seu escritório.
Ao contrário do restante de seu apartamento, que era mobiliado com artesanato estilo kitsch e achados de mercados de pulgas, o escritório era puro profissionalismo. As curvas elegantes e sensuais de sua mesa de cromo e vidro se refletiam nas curvas da escultura sobre a prateleira flutuante e as estantes arredondadas de ébano.
Havia uma poltrona estofada baixa de seda vermelha no canto, que captava a luz matinal. Perfeita para leitura. Ali, ela sabia, era onde leria os livros que Joe escolhesse para a aposta. Quando lia por prazer, inevitavelmente escolhia o sofá enfeitado com almofadas ou sua cama. Mas, não importando quais histórias Joe escolhesse, a leitura delas seria completamente profissional. Afinal, sua reputação estava em jogo.
E, ela percebeu enquanto sentava na cadeira de couro do escritório para ligar o laptop, se seus instintos femininos pouco usados estivessem certos, sua moral também estava em jogo.
Ela não iria arriscar nenhum deles sem fazer o dever de casa. Qualquer bom aluno sabia que o conhecimento estava na pesquisa. E se, durante o processo para tentar descobrir que tipo de livro Joe escolheria, ela encontrasse pistas de como lidar com ele e vencer com sua argumentação, isso seria ótimo.

Mas, principalmente, ela queria ter muita certeza de que, se e quando, eles acabassem fazendo sexo, ela estaria munida com o máximo de informações que pudesse encontrar para mostrar um desempenho nota 10. Porque, após anos obcecada com os homens dos livros, ela seria uma idiota completa se perdesse a chance de realmente se transformar em uma das mulheres que fantasiara ser.


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Que bom que estão gostando <3

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