20.3.15

Capítulo Dezenove




Terça-feira, 30 de outubro de 2012
12h10

Estendo a mão até o rosto e enxugo uma lágrima. Nem sei por que elas estão escorrendo; a memória na verdade não foi triste. Acho que é porque foi um dos primeiros momentos em que comecei a amar Dianna. Pensar no quanto a amo me faz sofrer por causa do que ela fez. Sofro porque parece que nem a conheço. Parece que tem um lado dela que eu nem sequer sabia que existia.
No entanto, não é isso o que mais me assusta. O que mais me assusta é o meu medo de que o único lado dela que eu realmente conheço... talvez nem exista.
— Posso perguntar uma coisa? — diz Jonas, quebrando o silêncio.
Faço que sim com a cabeça apoiada no peito dele, enxugando a última lágrima da bochecha. Ele põe ambos os braços ao meu redor, tentando me manter aquecida ao sentir que estou tremendo no seu peito. Ele massageia meu ombro e beija minha cabeça.
— Você acha que vai ficar bem, Demi?
Não é uma pergunta incomum. É uma pergunta bem simples e direta, mas mesmo assim acho que é a pergunta mais difícil que já precisei responder.
Dou de ombros.
— Não sei — respondo com sinceridade. Quero pensar que vou ficar bem, especialmente sabendo que Jonas estará do meu lado. Mas, para falar a verdade, não sei se vou.
— O que a deixa com medo?
— Tudo — respondo depressa. — Morro de medo do passado. Morro de medo das memórias que surgem na minha mente toda vez que fecho os olhos. Estou assustada com o que vi hoje e com a forma que isso vai me afetar nas noites em que você não estiver comigo para distrair meus pensamentos.
Tenho medo de não ter capacidade emocional de lidar com o que pode acontecer com Dianna. Receio pensar que não faço mais ideia de quem ela é. — Levanto a cabeça do seu peito e olho nos seus olhos. — Mas quer saber o que mais me deixa com medo?
Ele passa a mão no meu cabelo e mantém o olhar fixo no meu, querendo demonstrar que está prestando atenção.
— O quê? — pergunta ele, com a voz sinceramente preocupada.
— Tenho medo do quanto me sinto desconectada de Hope. Sei que somos a mesma pessoa, mas sinto como se o que aconteceu com ela não tivesse acontecido comigo de verdade. Sinto como se a tivesse abandonado. Como se a tivesse deixado lá, chorando naquela casa, apavorada por toda a eternidade, enquanto eu simplesmente entrava no carro e ia embora. Agora sou duas pessoas muito distintas. Sou essa garotinha que está sempre apavorada... mas também sou a garota que a abandonou. Eu me sinto tão culpada por erguer essa parede entre as duas vidas e tenho medo de que nenhuma dessas vidas ou dessas garotas possa voltar a se sentir completa.
Enterro a cabeça no peito dele, sabendo que é bem provável que eu não esteja fazendo o menor sentido. Ele beija o topo da minha cabeça, e eu ergo o olhar para o céu, perguntando-me se algum dia serei capaz de me sentir normal outra vez. Era tão mais fácil não saber a verdade.
— Depois que meus pais se divorciaram — diz ele —, minha mãe ficou preocupada conosco, então colocou Less e eu na terapia. Só durou uns seis meses... mas lembro que sempre fui muito rigoroso comigo mesmo, achando que tinham se divorciado por minha causa. Sentia como se o que eu não fiz no dia em que a levaram tivesse deixado eles dois muito estressados. Agora sei que a maior parte das coisas pela qual me culpava naquela época estava fora do meu controle. Mas meu terapeuta fez uma coisa uma vez que me ajudou um pouco. Na hora foi meio constrangedor, mas de vez em quando percebo que estou fazendo aquilo novamente em certas situações. Ele me fez visualizar a mim mesmo no passado, conversar com a versão mais nova de mim e dizer tudo que eu precisava. — Ele levanta meu rosto me fazendo olhar para ele. — Acho que você devia tentar isso. Sei que parece bobagem, mas é sério. Acho que pode ajudá-la. Acho que precisa voltar no tempo e dizer para Hope tudo que queria ter sido capaz de dizer no dia em que a abandonou.
Apoio o queixo no seu peito.
— Como assim? Está dizendo para me imaginar falando com ela?
— Exatamente — diz ele. — Apenas faça isso. Feche os olhos.
Obedeço. Não sei direito o que estou fazendo, mas faço mesmo assim.
— Eles estão fechados?
— Estão. — Ponho a mão em cima de seu coração e pressiono a têmpora em seu peito. — Mas não tenho certeza do que fazer.
— Imagine você mesma como é agora. Imagine-se dirigindo até a casa do seu pai e estacionando do outro lado da rua. Mas imagine a casa como era naquela época — diz ele. — Pense em como ela era quando você era Hope. Consegue lembrar que a casa era branca?
Aperto os olhos mais ainda, recuperando vagamente a lembrança da casa branca em algum lugar no fundo da minha mente.
— Consigo.
— Ótimo. Agora precisa encontrá-la. Converse com ela. Conte o quanto ela é forte. Diga o quanto é bonita. Diga tudo que ela precisa ouvir de você, Demi. Tudo que você queria ter sido capaz de dizer para si mesma naquele dia.
Esvazio a mente e faço o que ele sugeriu. Eu me imagino como sou agora e o que aconteceria se eu de fato fosse dirigindo até aquela casa. É bem provável que estivesse com meu vestido de alcinha e com o cabelo preso num rabo de cavalo por causa do calor. Quase consigo sentir o sol atravessando o para-brisa, aquecendo minha pele.
Eu me obrigo a sair do carro e atravessar a rua, apesar de hesitar em me aproximar da casa. Meu coração fica imediatamente acelerado. Não tenho certeza se quero vê-la, mas faço o que Jonas sugeriu e continuo andando. Assim que me viro para o lado da casa, eu a vejo. Hope está sentada na grama, com os braços dobrados por cima dos joelhos. Está chorando em cima deles, e a cena despedaça completamente meu coração.
Me aproximo devagar, paro e me abaixo com relutância, sem conseguir desviar o olhar dessa garotinha tão frágil. Depois que me sento na grama bem na frente dela, a menina ergue a cabeça dos braços cruzados e olha para mim. Ao fazer isso, minha alma desmorona porque não há nenhuma vida em seus olhos castanho-escuros. Não tem a menor alegria neles. No entanto, tento sorrir para ela, pois não quero que saiba o quanto ver seu sofrimento está me afligindo.
Estendo a mão para ela, mas paro a alguns centímetros antes. Seus olhos castanhos e tristes se focam nos meus dedos e os encaram. Minhas mãos começam a tremer, e ela percebe. Talvez por ela perceber que também estou com medo fique mais fácil conquistar sua confiança, pois ela ergue mais ainda a cabeça, descruza os braços e põe a mão pequenina em cima da minha.
Estou olhando para a mão da minha infância segurando a mão do meu presente, mas tudo que quero é segurar mais que a mão dela. Quero agarrar todo seu sofrimento e medo, e arrancá-los dela.
Ao me lembrar das coisas que Jonas disse que eu devia falar, olho para ela e limpo a garganta, apertando sua mão com firmeza.
— Hope. — Ela continua olhando para mim pacientemente enquanto arranjo coragem lá no fundo para poder falar com ela... para dizer tudo que precisa saber. — Sabia que você é uma das garotinhas mais corajosas que conheci?
Ela balança a cabeça e baixa o olhar para a grama.
— Não, não sou — diz ela baixinho, acreditando no que diz.
Estendo o braço, seguro a outra mão dela e a encaro bem nos olhos.
— Sim, é sim. Você é incrivelmente corajosa. E vai conseguir superar isso, pois tem um coração muito forte. Um coração capaz de amar tantas coisas da vida e das pessoas de uma maneira que jamais imaginou que um coração fosse capaz. E você é linda. — Pressiono a mão no seu coração. — Aqui dentro. Seu coração é tão bonito, e um dia alguém vai amá-lo do jeito que ele merece.
Ela afasta uma das mãos e enxuga os olhos.
— Como sabe disso tudo?
Eu me inclino para a frente e ponho os braços totalmente ao redor dela. Ela retribui colocando seus braços ao meu redor e permitindo que eu a abrace. Abaixo a cabeça e sussurro em seu ouvido:
— Eu sei porque já passei exatamente pelo que você está passando. Sei o quanto seu coração dói por causa do que seu papai faz com você porque ele também fez isso comigo. Sei o quanto o odeia por causa disso, mas também sei o quanto o ama por ele ser seu papai. E não tem problema, Hope. Não tem problema amar as partes boas, porque ele não é de todo mau. Também não tem problema odiar as partes ruins que a deixam tão triste. Tudo bem você sentir seja o que for que precisar sentir. Só me prometa que nunca, jamais vai se sentir culpada. Prometa para mim que nunca vai se culpar. Não é culpa sua. Você é apenas uma garotinha, e não é culpa sua se sua vida é bem mais difícil do que devia ser. E por mais que queira esquecer que tudo isso aconteceu com você, e por mais que queira esquecer que essa parte da sua vida existiu, preciso que se lembre dela.
Sinto seus braços tremendo, e ela está chorando em silêncio encostada no meu peito. Suas lágrimas fazem as minhas próprias escaparem.
— Quero que lembre quem você é, apesar de todas as coisas ruins que estão acontecendo com você. Porque essas coisas ruins não são você. São apenas coisas que aconteceram com você. Precisa aceitar que quem é e o que acontece com você são duas coisas diferentes.
Levanto a cabeça do meu peito com gentileza e vejo seus olhos castanhos e chorosos.
— Prometa para mim que, não importa o que aconteça, nunca terá vergonha de ser quem é, independentemente do quanto queira sentir essa vergonha. E talvez isso não faça sentido para você agora, mas quero que me prometa que nunca vai deixar que as coisas que seu papai faz com você definam quem você é e a separem da pessoa que é. Me prometa que nunca vai perder a Hope.
Ela faz que sim com a cabeça enquanto enxugo suas lágrimas com os dedos.
— Prometo — diz ela.
Ela sorri para mim, e, pela primeira vez desde que vi seus grandes olhos castanhos, há um certo ânimo neles. Eu a puxo para o meu colo, e ela põe os braços ao redor do meu pescoço enquanto a abraço, a balanço, e nós duas choramos nos braços uma da outra.
— Hope, prometo que daqui para a frente nunca vou deixá-la para trás. Vou levá-la comigo no meu coração para sempre. Nunca mais terá de ficar sozinha.
Choro no cabelo de Hope, mas ao abrir os olhos vejo que estou chorando nos braços de Jonas.
— Falou com ela? — pergunta ele.
Faço que sim com a cabeça.
— Falei. — Nem estou tentando conter as lágrimas. — Disse tudo a ela.
Jonas começa a se sentar, então faço o mesmo.
Ele se vira para mim e segura meu rosto.
— Não, Demi. Você não disse tudo a ela... você disse tudo para si mesma. Essas coisas aconteceram com você, não com outra pessoa. Elas aconteceram com Hope. Aconteceram com Demi. Aconteceram com a melhor amiga que eu amava tantos anos atrás, e aconteceram com a melhor amiga que eu amo e que está olhando para mim nesse exato momento. — Ele pressiona os lábios nos meus, me beija e se afasta. É só quando olho para ele que percebo que está chorando comigo. — Você precisa ter orgulho de ter sobrevivido a tudo pelo que passou quando criança. Não se afaste daquela vida. Aceite-a, pois tenho um orgulho do cacete de você. Todo sorriso que vejo no seu rosto me deixa embasbacado, pois sei de quanta coragem e força você precisou quando criança para garantir que essa sua parte permanecesse viva. E sua risada? Meu Deus, Demi. Pense no tanto de coragem foi preciso para voltar a rir depois de tudo que lhe aconteceu. E seu coração... — diz ele, balançando a cabeça, incrédulo. — O fato de seu coração conseguir encontrar uma maneira de amar e confiar num homem novamente prova que eu me apaixonei pela mulher mais corajosa que já conheci. Sei de quanta coragem precisou para deixar eu me aproximar de você depois do que seu pai fez. E juro que até meu último suspiro vou agradecer a você por se permitir me amar. Muito obrigado por me amar, Demetria Devonne Hope.
Ele pronuncia cada um dos meus nomes lentamente, sem nem tentar enxugar minhas lágrimas, pois são muitas. Jogo os braços ao redor de seu pescoço e deixo ele me abraçar — abraçar todos os meus 17 anos.

Terça-feira, 30 de outubro de 2012
09h05

O sol está brilhando tanto que atravessa o cobertor que puxei para cima dos olhos. No entanto, não foi o sol que me acordou. Foi a voz de Jonas.
— Olhe, você não faz ideia do que ela passou nos últimos dois dias — diz Jonas. Ele está tentando falar baixinho, ou para não me acordar ou para que eu não escute a conversa. Não escuto ninguém respondendo, então deve estar ao telefone. Mas com quem diabos está falando? — Entendo que precisa defendê-la. Acredite em mim, entendo mesmo. Mas vocês sabem que ela não vai entrar naquela casa sozinha.
Há uma longa pausa antes de ele suspirar pesadamente no telefone.
— Preciso garantir que ela coma alguma coisa, então dê um tempo para nós. Sim, prometo. Vou acordá-la assim que desligar. Sairemos daqui a uma hora no máximo.
Ele não se despede, mas escuto quando coloca o telefone na mesa. Após alguns segundos, a cama se afunda um pouco e ele desliza o braço ao meu redor.
— Acorde — diz ele no meu ouvido.
Não me mexo.
— Estou acordada — digo por debaixo das cobertas. Sinto sua cabeça pressionar meu ombro.
— Então você escutou? — pergunta ele baixinho.
— Quem era?
Ele muda de posição na cama e puxa as cobertas que cobrem minha cabeça.
— Era Eddie. Ele está alegando que Dianna confessou tudo para ele ontem. E está preocupado.
Quer que você vá conversar com ela.
Meu coração para imediatamente.
— Ela confessou? — pergunto com certa cautela, me sentando na cama.
Ele confirma com a cabeça.
— Não entramos em detalhes, mas ele parece saber o que está acontecendo. Mas contei sobre seu pai... só porque Dianna queria saber se você tinha se encontrado com ele. Quando acordei hoje, o assunto estava sendo noticiado. Concluíram que foi suicídio, porque foi ele mesmo quem telefonou para a viatura. Nem vai ter investigação. — Ele segura minha mão e a acaricia com o polegar. — Demi, Eddie me pareceu desesperado para você voltar. Acho que tem razão... precisamos voltar e resolver isso. Você não vai estar sozinha. Vou estar lá e Eddie também. E, pelo jeito, Dianna está cooperando. Sei que é difícil, mas não temos escolha.
Está falando comigo como se precisasse me convencer, mas, na verdade, já me sinto pronta. Preciso estar cara a cara com ela para conseguir respostas para minhas últimas perguntas. Saio de baixo das cobertas, me levanto da cama e me espreguiço.
— Antes preciso escovar os dentes e trocar de roupa. E depois podemos ir. — Vou até o banheiro e não me viro, mas sinto certo orgulho emanar dele. Está orgulhoso de mim.
Jonas me entrega o celular quando estamos na estrada.
— Tome. Nick e Miley estão preocupados com você. Dianna pegou os números dos dois no seu celular e ficou ligando o fim de semana inteiro tentando descobrir onde você estava.
— Falou com algum deles?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Falei com Nick agora de manhã, logo antes de Eddie ligar. Disse que você e sua mãe tinham brigado e que você queria passar alguns dias fora.
Ele aceitou a explicação.
— E Miley?
Ele olha para mim e abre um meio sorriso.
— Talvez seja bom você mesma falar com ela.
Trocamos alguns e-mails e tentei usar a mesma explicação que dei para Nick, mas Miley não acreditou. Disse que você e Dianna nunca brigam e que eu preciso contar a verdade antes que ela tenha que pegar um avião de volta ao Texas para me encher de porrada.
Estremeço, sabendo que Miley deve estar louca de preocupação comigo. Não mando mensagem alguma para ela há dias, então decido adiar a ligação para Nick e mandar logo um e-mail para ela.
— Como se manda um e-mail para alguém? — pergunto. Jonas ri, pega o telefone e aperta alguns botões. Ele me devolve e aponta para a tela.
— É só digitar aí o que precisa dizer, depois me devolva que envio para ela.
Digito um e-mail curto, dizendo que descobri algumas coisas sobre meu passado e que precisava passar alguns dias fora. Prometo que vou ligar sem falta para explicar tudo nos próximos dias, mas ainda não tenho certeza se vou contar a verdade para ela. A essa altura, não sei se quero que mais alguém saiba da minha situação. Pelo menos não até que eu tenha todas as respostas.
Jonas envia o e-mail e entrelaça os dedos com os meus. Fixo o olhar na janela e fico encarando o céu.
— Está com fome? — pergunta ele após dirigir em silêncio por mais de uma hora. Balanço a cabeça. Estou nervosa demais para comer qualquer coisa, pois sei que logo mais vou confrontar Dianna. Estou nervosa demais até para conseguir manter uma conversa normal. Estou nervosa demais para fazer qualquer coisa que não seja ficar olhando pela janela e me perguntando onde vou estar quando acordar amanhã. — Você precisa se alimentar, Demi. Mal comeu nos últimos três dias, e, com essa sua tendência a desmaiar, acho que uma comida agora não seria uma má ideia.
Ele não vai desistir até eu comer, então cedo.
— Está bem — murmuro.
Ele acaba escolhendo um restaurante mexicano na beira da estrada depois que não decidi sozinha onde comer. Peço algo do menu de almoço só para agradá-lo. É mais que provável que não consiga comer nada.
— Quer brincar de Questionário do Jantar? — diz ele, mergulhando um nacho no molho.
Dou de ombros. Não quero imaginar o que terei de lidar daqui a cinco horas, então talvez isso me ajude a não pensar nessas coisas.
— Acho que sim. Mas com uma condição. Não quero falar sobre nada que tenha a ver com os primeiros anos da minha vida, com os últimos três dias nem com as próximas 24 horas.
Ele sorri, parecendo estar aliviado. Talvez Jonas também não queira pensar em nada disso.
— Primeiro as damas — diz ele.
— Então abaixe o nacho — digo, olhando para a comida que ele está prestes a colocar na boca.
Ele olha para o nacho e franze a testa, como se estivesse sofrendo com isso.
— Então faça uma pergunta rápida, estou faminto.
Aproveito que é minha vez para dar um gole no refrigerante e morder o nacho que acabei de tirar das mãos dele.
— Por que gosta tanto de correr? — pergunto.
— Não sei — responde ele, recostando-se. — Comecei a correr quando tinha 13 anos. No início era uma forma de fugir de Less e de suas amigas irritantes. Às vezes, tudo que precisava era dar uma saída de casa. Os gritinhos e risadinhas de meninas de 13 anos podem ser extremamente dolorosos. Gostava do silêncio da corrida. Caso não tenha percebido ainda, meio que gosto de ficar refletindo sobre as coisas, pois assim elas ficam mais claras na minha cabeça.
Eu rio.
— Já percebi sim — digo. — Foi sempre assim?
Ele sorri e balança a cabeça.
— Essa já é outra pergunta. Minha vez. — Ele tira da minha mão o nacho que eu estava prestes a comer, coloca-o na boca e toma um gole de refrigerante. — Por que você não fez o teste para entrar na equipe de atletismo?
Ergo a sobrancelha e rio.
— Que pergunta estranha de se fazer agora. Isso já faz dois meses.
Ele balança a cabeça e aponta um nacho para mim.
— Não pode julgar minhas perguntas.
— Tudo bem. — Dou uma risada. — Na verdade, não sei. O colégio não estava sendo como eu imaginava. Não esperava que as outras garotas fossem tão malvadas. Todas elas só falavam comigo para me dizer que eu era a maior vadia. Nick foi a única pessoa em toda a escola que fez algum esforço para se aproximar de mim.
— Não é verdade — diz Jonas. — Está se esquecendo de Shayla.
Eu rio.
— Não quer dizer Shayna?
— Tanto faz — diz ele, balançando a cabeça. — Sua vez. — Ele enfia outro nacho depressa na boca e sorri para mim.
— Por que seus pais se divorciaram?
Ele abre um sorriso tenso e tamborila de leve os dedos na mesa antes de dar de ombros.
— Acho que tinha chegado a hora deles — diz ele, de maneira indiferente.
— Tinha chegado a hora? — pergunto, confusa com a resposta vaga. — E hoje em dia os casamentos têm prazo de validade, é?
Ele dá de ombros.
— Para algumas pessoas, sim.
Fico interessada no raciocínio. Espero que ele não diga que minha pergunta já foi feita, pois quero mesmo saber o que pensa sobre isso. Não que eu esteja planejando me casar num futuro próximo. Mas é por ele que estou apaixonada, então não vai fazer mal saber sua opinião para eu não ficar tão chocada daqui a alguns anos.
— Por que acha que o casamento deles tinha um limite de tempo? — pergunto.
— Todos os casamentos têm limite de tempo se as pessoas se casam pelos motivos errados. O casamento não vai ficando mais fácil com o tempo... só fica mais difícil. Se decidir se casar com alguém na esperança de melhorar as coisas, é melhor marcar logo o timer no segundo em que disser “sim”.
— E quais foram os motivos errados para se casarem?
— Eu e Less — diz ele, sendo direto. — Eles se conheciam há menos de um mês quando minha mãe engravidou. Meu pai se casou com ela achando que era a coisa certa a fazer, quando talvez a coisa certa fosse não engravidá-la, em primeiro lugar.
— Acidentes acontecem — digo.
— Eu sei. E é por isso que agora eles estão divorciados.
Balanço a cabeça, triste por estar falando tão casualmente sobre a falta de amor entre os pais. Mas isso já tem oito anos. O Jonas de 10 anos talvez não tenha aceitado tão casualmente o divórcio enquanto este se desenrolava.
— Mas não acha que o divórcio é inevitável para todos os casamentos?
Ele cruza os braços por cima da mesa e inclina-se para a frente, estreitando os olhos.
— Demi, se está se perguntando se tenho problemas em me comprometer com alguém, a resposta é não. Algum dia, num futuro muito, muito, muito distante... tipo num futuro depois da universidade... quando eu for pedir você em casamento... algo que vou mesmo fazer um dia, pois não vai se livrar de mim... não vou me casar com você na esperança de que nosso casamento dê certo. Quando você for minha, vai ser para sempre. Já lhe disse que a única coisa que importa para mim em relação a você são os para sempre, e estava falando sério.
Sorrio para ele, pois, de alguma maneira, consigo ficar um pouco mais apaixonada do que há trinta segundos.
— Uau. Não precisou de muito tempo para pensar nessas palavras.
Ele balança a cabeça.
— É porque tenho pensado no para sempre com você desde que a vi no mercado.
Nossa comida não poderia ter chegado num momento mais perfeito, pois não faço ideia de como reagir a isso. Ergo o garfo para pegar um pedaço, mas ele estende o braço por cima da mesa e o tira rapidamente da minha mão.
— Não vale trapacear — diz ele. — Não terminamos ainda, e estou prestes a fazer uma pergunta bastante pessoal.
Ele come um pouco da comida e a mastiga devagar enquanto espero que faça sua pergunta “bastante pessoal”. Após tomar um gole da bebida, ele dá mais uma mordida e sorri para mim, prolongando sua vez de propósito para poder comer.
— Faça logo a maldita pergunta — digo com falsa irritação.
Ele ri, limpa a boca com o guardanapo e se inclina para a frente.
— Você usa algum método contraceptivo? — pergunta ele baixinho.
A pergunta dele me faz rir, pois não é nada pessoal quando é feita para a garota com quem se está transando.
— Não, não uso — admito. — Nunca tive razão para usar antes de você entrar na minha vida sem pedir licença.
— Pois bem, quero que use — diz ele com determinação. — Marque uma consulta essa semana.
Fico frustrada com o quanto ele foi rude.
— Podia ter pedido isso com um pouco mais de educação, sabe?
Ele arqueia a sobrancelha enquanto toma um gole da bebida e a coloca de volta na mesa com calma.
— Foi mal. — Ele sorri e mostra as covinhas para mim. — Me deixe dizer de outra maneira então. — Ele transforma a voz num sussurro rouco. — Pretendo fazer amor com você, Demi. Muito. Praticamente em todas as oportunidades que tivermos, porque curti muito você nesse fim de semana, apesar das circunstâncias. Então, para continuarmos fazendo amor, eu ficaria muito grato se você usasse algum outro método contraceptivo para que não acabemos nos metendo em um casamento com data de validade por causa de uma gravidez. Acha que pode fazer isso por mim? Para que a gente possa continuar transando muitas, muitas e muitas vezes?
Continuo com o olhar fixo no dele enquanto deslizo o copo vazio para a garçonete que agora está encarando Jonas boquiaberta. Mantenho uma expressão séria enquanto respondo.
— Bem melhor — digo. — E sim. Acho que posso providenciar isso.
Ele balança a cabeça uma vez e desliza o copo para perto do meu, encarando a garçonete. Ela finalmente sai do transe, enche nossos copos e vai embora. Assim que ela vai embora, fulmino Jonas com o olhar e mexo a cabeça.
— Como você é malvado, Joseph Jonas. — Eu rio.
— O quê? — diz ele de maneira inocente.
— Devia ser ilegal as palavras “fazer amor” e “transar” saírem dos seus lábios na presença de alguma outra mulher que não seja aquela que faz essas coisas com você. Acho que não percebe o efeito que causa nas mulheres.
Ele balança a cabeça e tenta ignorar meu comentário.
— Estou falando sério, Jonas. Não quero que seu ego exploda, mas devia saber que quase todas as mulheres com sinais vitais o acham incrivelmente atraente. Quero dizer, pense só numa coisa. Não consigo nem contar o número de garotos que conheci na vida, mas você foi o único por quem me senti atraída. Explique isso.
Ele ri.
— Essa é fácil.
— Por quê?
— Porque — começa ele, olhando para mim de propósito — você já me amava antes de me ver no mercado naquele dia. Só porque me bloqueou das suas memórias não quer dizer que tenha me bloqueado do seu coração. — Ele leva o garfo cheio até a boca, mas faz uma pausa antes de comer. —
Mas talvez tenha razão. Pode ter dado certo só porque você queria lamber minhas covinhas — diz ele, enfiando o garfo na boca.
— Com certeza foram as covinhas — afirmo, sorrindo.
Não consigo nem contar quantas vezes ele me fez sorrir nessa meia hora que estamos aqui, e, de alguma maneira, consegui comer metade da comida no meu prato. Só a presença dele já faz maravilhas para uma alma sofrida.

Terça-feira, 30 de outubro de 2012
19h20

Estamos a uma quadra da casa de Dianna quando peço que pare o carro. A ansiedade durante a viagem já foi tortura suficiente, mas estar de fato chegando é absolutamente apavorante. Não faço ideia do que dizer para ela nem de como reagir quando entrar na casa.
Jonas vai para a lateral da rua e estaciona o carro. Ele se vira para mim com um olhar preocupado.
— Está precisando da pausa de um capítulo? — pergunta ele.
Faço que sim com a cabeça, inspirando fundo. Ele estende o braço por cima do banco e segura minha mão.
— O que mais a assusta em vê-la outra vez?
Mudo de posição no banco para ficar de frente para ele.
— Tenho medo de nunca ser capaz de perdoá-la, independentemente do que disser para mim hoje. Sei que minha vida acabou sendo melhor com ela do que teria sido se eu tivesse ficado com meu pai, mas ela não tinha como saber disso quando me roubou. Saber do que ela é capaz torna ainda mais impossível perdoá-la. Se não consegui perdoar meu pai pelo que ele fez comigo... acho que também não serei capaz de perdoá-la.
Ele acaricia a parte de cima da minha mão com o polegar.
— Talvez você nunca a perdoe pelo que fez, mas pode apreciar a vida que ela lhe proporcionou depois disso. Ela tem sido uma boa mãe, Demi. Lembre-se disso quando estiver conversando com ela, está bem?
Exalo, nervosa.
— É isso que não consigo deixar de lado — digo. — O fato de ela realmente ter sido uma boa mãe, e eu a amo por isso. Eu a amo tanto e estou morrendo de medo de perdê-la depois de hoje.
Jonas me puxa para perto e me abraça.
— Também estou com medo por você, linda — diz ele, sem a ter a intenção de fingir que tudo vai ficar bem quando isso não é possível. É o medo do desconhecido. Nenhum de nós faz ideia do rumo que minha vida vai tomar depois que eu passar por aquela porta, nem se nós dois poderemos tomar juntos esse rumo.
Eu me afasto dele e ponho as mãos nos joelhos, juntando coragem para resolver logo isso.
— Estou pronta — digo. Ele balança a cabeça, manobra o carro de volta para a rua e vira na esquina, parando na frente da minha casa.
Ver a casa faz minhas mãos começarem a tremer ainda mais. Jonas abre a porta do motorista quando Eddie sai da casa e depois se vira para mim.
— Fique aqui — diz ele. — Quero falar com Eddie primeiro.
Jonas sai do carro e fecha a porta. Fico parada como ele pediu porque, sinceramente, não estou com a mínima pressa de sair desse carro. Fico observando Jonas e Eddie conversarem por vários minutos. Como Eddie ainda está aqui apoiando Dianna, me pergunto se ela contou mesmo toda a verdade sobre o que fez. Duvido que ele fosse continuar aqui se soubesse a verdade.
Jonas volta para o carro, dessa vez para a porta do carona, onde estou. Ele abre a porta e se ajoelha ao meu lado. Acaricia minha bochecha com a mão e alisa meu rosto com o dorso dos dedos.
— Está pronta? — pergunta ele.
Sinto minha cabeça balançando como se concordasse, mas não sinto que estou controlando o movimento. Vejo meus pés saírem do carro e minha mão se estendendo para a de Jonas, mas não sei como sou capaz de me mexer se estou conscientemente me esforçando para continuar sentada no carro. Não estou pronta para entrar, mas me afasto do carro nos braços de Jonas de todo jeito, e seguimos em direção à casa. Quando me aproximo de Eddie, ele estende os braços para me abraçar. Assim que seus braços familiares me cercam, me recupero e respiro fundo.
— Obrigado por voltar — diz ele. — Ela precisa dessa oportunidade para explicar tudo. Me prometa que vai deixá-la fazer isso.
Eu me afasto e olho-o nos olhos.
— Sabe o que ela fez, Eddie? Ela lhe contou?
Ele faz que sim com a cabeça, aflito.
— Eu sei e sei que é difícil para você. Mas agora precisa deixar que ela lhe conte o lado dela da história.
Ele vira-se para a casa e mantém o braço ao redor dos meus ombros. Jonas segura minha mão, e os dois me acompanham até a porta como se eu fosse uma criança frágil.
Eu não sou uma criança frágil.
Paro nos degraus e me viro para eles.
— Preciso conversar com ela a sós.
Pensei que ia querer Jonas ao meu lado, mas preciso ser forte por mim mesma. Amo a maneira como ele me protege, mas essa é a coisa mais difícil que já tive de fazer e quero ser capaz de dizer que a fiz sozinha. Se eu conseguir enfrentar isso sozinha, sei que terei coragem para enfrentar qualquer coisa.
Nenhum dos dois se opõe, e me sinto muito grata ao ver que têm fé em mim. Jonas aperta minha mão e me incentiva a seguir em frente com um olhar confiante.
— Vou ficar bem aqui — diz ele.
Respiro fundo e abro a porta da casa.
Entro na sala, e Dianna para de andar e se vira, assimilando o fato de estar me vendo. Assim que fazemos contato visual, ela perde o controle e vem correndo na minha direção. Não sei que expressão eu esperava ver no seu rosto ao entrar por aquela porta, mas de jeito algum era uma expressão de alívio.
— Você está bem — diz ela, jogando os braços ao redor do meu pescoço. Ela pressiona a mão na parte de trás da minha cabeça e me puxa para perto enquanto chora. — Sinto muito mesmo, Demi. Sinto muito mesmo por você ter descoberto antes que eu tivesse a chance de lhe contar. — Ela está tentando falar, mas começou a soluçar com força total. Ver o quanto ela está sofrendo me dá um aperto no coração. Saber que mentiu para mim não apaga imediatamente os 13 anos em que a amei, então vê-la sofrendo só me faz sofrer também.
Ela segura meu rosto e me olha nos olhos.
— Juro que ia contar tudo assim que fizesse 18 anos. Não fiquei feliz por você ter descoberto tudo sozinha. Fiz tudo que podia para evitar que isso acontecesse.
Seguro suas mãos, afasto-as do meu rosto e passo por ela.
— Não faço ideia de como reagir ao que está dizendo agora, mãe. — Eu me viro e a olho nos olhos. — Quero saber tanta coisa, mas estou morrendo de medo de perguntar. Se você responder, como vou saber que está me dizendo a verdade? Como vou saber que não vai mentir para mim como fez nos últimos 13 anos?
Dianna vai até a cozinha e pega um guardanapo para enxugar os olhos. Ela inspira tremulamente algumas vezes, tentando se controlar.
— Sente-se aqui comigo, querida — diz ela, passando por mim para chegar ao sofá. Continuo em pé enquanto a vejo se sentar na beirada. Ela ergue o olhar para mim com uma expressão de mágoa espalhada no rosto inteiro. — Por favor — pede ela. — Sei que não confia em mim, e você tem todo o direito de não confiar depois do que fiz, mas, se for capaz de reconhecer que eu a amo mais que a própria vida, vai me dar a oportunidade de me explicar.
Em seu olhar não havia nada além da verdade. Por causa disso, vou até o sofá e me sento do outro lado. Ela respira fundo e exala, controlando-se o suficiente para começar a explicação.
— Para eu poder contar a verdade sobre o que aconteceu com você... primeiro preciso explicar a verdade sobre o que aconteceu comigo. — Ela faz uma pausa de alguns minutos, segurando-se para não começar a chorar de novo. Vejo em seus olhos que seja lá o que esteja prestes a me dizer é quase insuportável para ela. Quero me aproximar e abraçá-la, mas não posso. Por mais que a ame, simplesmente não consigo consolá-la.
“Tive uma mãe maravilhosa, Demi. Você a teria amado tanto. Seu nome era Dawn, e ela amava muito meu irmão e eu. Meu irmão, Patrick, era dez anos mais velho, então nunca tivemos nenhuma rivalidade enquanto crescíamos. Meu pai morreu quando eu tinha 9 anos, então Patrick foi mais uma figura paterna que um irmão para mim. Era meu protetor. Ele era um irmão tão bom, e ela, uma mãe tão boa.
Infelizmente, quando fiz 13 anos, o fato de Patrick ser como um pai para mim tornou-se a realidade dele no dia em que minha mãe faleceu.
“Patrick só tinha 23 anos e havia acabado de se formar na universidade. Eu não tinha nenhuma outra família disposta a me acolher, então ele fez o que precisava ser feito. No início, não tivemos problema algum. Eu sentia falta da minha mãe mais do que devia, e, para ser sincera, Patrick estava achando bem difícil lidar com tudo isso. Tinha acabado de começar a trabalhar logo após se formar, e as coisas estavam complicadas para ele. Para nós dois. Quando completei 14 anos, o estresse do trabalho já o estava afetando. Ele começou a beber, e eu passei a me rebelar, ficando na rua até mais tarde do que devia em várias ocasiões.
“Uma noite, quando voltei para casa, ele estava com muita raiva de mim. Nossa discussão logo se transformou numa luta física, e ele bateu em mim várias vezes. Ele jamais tinha batido em mim, então fiquei apavorada. Corri para meu quarto, e, alguns minutos depois, ele apareceu para pedir desculpas. Seu comportamento nos meses anteriores, devido ao excesso de bebida, já estava me deixando com medo. E quando esse comportamento ficou tão grave a ponto de ele me bater... me fez ficar apavorada.”
Dianna muda de posição no sofá e estende o braço para tomar um gole d’água. Observo sua mão enquanto ela leva o copo à boca, e percebo que seus dedos estão tremendo.
— Ele tentou pedir desculpas, mas me recusei a escutá-lo. Minha teimosia o deixou com mais raiva ainda, então me empurrou na cama e começou a gritar comigo. Ele não parava de gritar, dizendo que eu tinha arruinado a vida dele. Disse que eu devia era agradecer por tudo que ele estava fazendo por mim... que tinha uma dívida com ele, que trabalhava tanto para cuidar de mim.
Dianna limpa a garganta e novas lágrimas brotam em seus olhos enquanto se esforça para continuar contando a verdade dolorosa de seu passado. Ela encontra meu olhar, e percebo que as palavras na ponta de sua língua são quase difíceis demais para serem ditas.
— Demi... — diz ela, sofrendo. — Meu irmão me estuprou naquela noite. Não somente naquela noite; ele continuou fazendo aquilo comigo quase todas as noites durante dois anos inteiros.
Levo as mãos até a boca e solto o ar. O sangue se esvai da minha cabeça, mas sinto como se também estivesse se esvaindo do resto do meu corpo. Eu me sinto completamente vazia ao escutar aquelas palavras, pois estou morrendo de medo do que acho que ela está prestes a me contar. O vazio em seu olhar é ainda maior que aquilo que estou sentindo.
Em vez de esperar ela me contar, pergunto logo.
— Mãe... Patrick... ele era meu pai, não era?
Ela não demora em concordar com a cabeça enquanto lágrimas escorrem por seu rosto.
— Sim, querida. Era. Lamento muito.
Meu corpo inteiro treme com o soluço que sai de mim, e os braços de Dianna me cercam assim que as primeiras lágrimas escapam dos meus olhos. Jogo os braços ao seu redor e agarro sua camisa.
— Sinto muito por ele ter feito isso com você — digo, chorando. Dianna se senta ao meu lado, e nós ficamos abraçadas enquanto choramos por causa das coisas que um homem que amávamos com todo o nosso coração fez conosco.
— Tem mais — diz ela. — Quero contar tudo, está certo?
Faço que sim com a cabeça enquanto ela se afasta de mim e segura minhas mãos.
— Quando fiz 16 anos, contei para uma amiga o que ele estava fazendo comigo. Ela contou para a mãe, que o denunciou à polícia. Naquela época, Patrick trabalhava para a polícia há três anos e o respeitavam. Quando foi questionado sobre a denúncia, alegou que era invenção minha porque não me deixava ver meu namorado. Ele acabou sendo inocentado, e o caso foi encerrado, mas eu sabia que não conseguiria mais morar com ele. Fiquei morando com alguns amigos até terminar o colégio dois anos depois. Nunca mais falei com ele.
“Seis anos se passaram antes que eu o visse novamente. Eu tinha 21 anos e estava na faculdade. Dentro de um mercado, escutei a voz dele no corredor ao lado. Fiquei paralisada, sem conseguir respirar enquanto ouvia a conversa. Eu teria sido capaz de lhe reconhecer a voz em qualquer canto. Há algo na voz dele que me deixa apavorada, que a torna inesquecível.
“Mas naquele dia não foi a voz dele que me deixou paralisada... foi a sua. Eu o escutei conversando com uma garotinha e imediatamente me lembrei de todas as noites em que ele me machucou. Eu me senti enjoada, pois sabia do que ele era capaz. Fiquei seguindo vocês a uma certa distância, observando-os interagirem. Num dado momento, ele se afastou alguns metros do carrinho de compras, e você me viu. Ficou me encarando por um bom tempo e era a garotinha mais linda que eu tinha visto. Mas também era a garotinha mais triste que eu tinha visto. Soube, assim que olhei nos seus olhos, que ele estava fazendo com você exatamente o que tinha feito comigo. Eu vi o desespero e o medo nos seus olhos quando você me olhou.
“Passei os próximos dias tentando descobrir tudo sobre você e sobre seu relacionamento com ele. Descobri o que tinha acontecido com sua mãe e que ele estava criando você sozinho. Por fim, criei coragem para fazer uma denúncia anônima, na esperança de que ele finalmente fosse ter o que merecia. Uma semana depois, fiquei sabendo que após a entrevistarem, o caso foi arquivado na mesma hora pelo Serviço de Proteção à Criança. Não sei ao certo se foi por ele ter um cargo alto na polícia, mas tenho quase certeza de que sim. Independentemente disso, era a segunda vez que ele se safava. Não suportava a ideia de deixá-la ficar com ele sabendo o que estava acontecendo com você. Tenho certeza de que havia outras maneiras de lidar com isso, mas eu era jovem e estava morrendo de medo por você.
Não sabia mais o que fazer, pois a lei já tinha falhado com nós duas.
“Alguns dias depois, tinha tomado minha decisão. Se ninguém mais ia ajudá-la a se afastar dele... então eu ia. No dia em que parei o carro na sua casa, nunca vou me esquecer daquela garotinha triste chorando nos próprios braços, sentada sozinha na grama. Quando a chamei e você se aproximou de mim e entrou no meu carro... nós fomos embora e eu nunca olhei para trás.”
Dianna aperta minhas mãos e olha séria para mim.
— Demi, juro do fundo do meu coração que tudo que queria era proteger você. Fiz tudo que podia para evitar que ele a encontrasse. Que você o encontrasse. Nunca mais falamos sobre ele, e fiz o que pude para você superar o que tinha acontecido e ter uma vida normal. Sabia que não conseguiria escondê-la para sempre. Sabia que chegaria o dia em que eu precisaria lidar com o que fiz... mas nada disso importava para mim. Nada disso importa para mim ainda hoje. Só queria que ficasse em segurança até ser maior de idade e nunca mais tivesse que voltar para ele.
“Na véspera de eu levá-la, fui até sua casa e não havia ninguém ali. Entrei porque queria encontrar algumas coisas que pudessem confortá-la quando estivesse em segurança comigo. Algo como um cobertor preferido ou um ursinho de pelúcia. Quando entrei no seu quarto, percebi que nada naquela casa seria capaz de trazer algum conforto para você. Se você fosse como eu, tudo que tivesse a ver com seu pai a lembraria do que ele fez com você. Então não peguei nada, pois não queria que se lembrasse do que ele tinha feito”.
Ela se levanta, sai do cômodo em silêncio e volta com uma pequena caixa de madeira, que coloca em minhas mãos.
— Não consegui sair de lá sem isso. Sabia que, quando chegasse o dia de lhe contar a verdade, você também ia querer saber tudo sobre sua mãe. Não consegui encontrar muita coisa, mas eu guardei o que achei.
Lágrimas enchem meus olhos enquanto passo os dedos pela caixa de madeira que contém as únicas memórias de uma mulher de quem eu achava que nunca teria a oportunidade de me lembrar. Não a abro. Não consigo. Preciso abri-la sozinha.
Dianna põe uma mecha do meu cabelo para trás da orelha, e eu ergo o olhar para ela.
— Sei que o que fiz foi errado, mas não me arrependo. Se eu tivesse de fazer tudo de novo só para garantir sua segurança, nem pensaria duas vezes. Também sei que você provavelmente me odeia por ter mentido. E aceito isso, Demi, pois sei que a amo o bastante por nós duas. Nunca se sinta culpada pelo que fiz com você. Tenho planejado essa conversa e esse momento há 13 anos, então estou preparada para qualquer coisa que fizer e qualquer decisão que tomar. Quero que faça o que for melhor para você. Ligo para a polícia agora mesmo se for o que você quiser que eu faça. Estou mais que disposta a contar a eles tudo que acabei de contar para você se isso for ajudá-la a ficar em paz. Se precisar que eu espere até seu verdadeiro aniversário de 18 anos para poder continuar morando aqui enquanto isso, farei isso. Eu me entrego no instante em que você puder cuidar de si mesma legalmente e nunca vou questionar sua decisão. Mas o que quer que escolha, Demi. O que quer que decida, não se preocupe comigo. Saber que agora você está segura é tudo que eu poderia pedir. O que quer que venha acontecer comigo agora valeu todos os segundos desses 13 anos que passei com você.
Olho para a caixa e continuo chorando, sem ter a mínima ideia do que fazer. Não sei o que é certo e errado, e nem sei se o certo é errado nessa situação. Só sei que não posso responder agora. Com todas as coisas que ela acabou de me contar, sinto como se tudo que soubesse sobre justiça tivesse me dado uma grande tapa na cara.
Olho para ela e balanço a cabeça.
— Não sei — sussurro. — Não sei o que quero que aconteça. — Eu não sei o que quero, mas sei do que estou precisando. Estou precisando da pausa de um capítulo.
Eu me levanto, e ela continua sentada, me observando enquanto vou até a porta. Não consigo olhá-la nos olhos ao abrir a porta.
— Preciso pensar um pouco — digo baixinho, ao sair. Assim que a porta se fecha, os braços de Jonas me envolvem. Balanço a caixa de madeira na mão e ponho o outro braço ao redor do pescoço dele, enterrando minha cabeça em seu ombro. Choro na sua camisa, sem saber como começar a processar tudo que acabei de descobrir. — O céu — digo. — Preciso olhar para o céu.
Ele não faz nenhuma pergunta, pois sabe exatamente a que estou me referindo, então segura minha mão e me leva para o carro. Eddie volta para dentro de casa enquanto Jonas e eu vamos embora.


*****

Acabou a semana de provas, amém.. Só mais segunda e terça, e depois já volto a postar diariamente.
Realmente sinto falta de algumas pessoas comentando, em 6 dias, só 6 comentários? O que houve?
Bom, eu quero comentários pra postar o último capítulo, aí, terça começo a nova fic.
Amo vcs, bjs

16 comentários:

  1. Último capítulo? Nãããão
    Eu nem sem o que falar! Diana é a irmã de Patrick???! Cara, eu nunca imaginaria isso
    Eu amei o capítulo meu anjo
    Posta logo
    Beijos e eu amo você

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    1. Pois é, acho que foi uma surpresa pra todo mundo \O/
      Que bom amor <3
      Posto sim, beijos

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  2. Caralho eu nunca iria imaginar que a Diana era irmã do Patrick e que passou pela mesma coisa que a Demi e "sequestrou" ela pra poder proteger ela do pai.
    Cada capitulo que passa eu fico mais apaixonada pelo Jonas e a Demi juntos <3 menina me de um tempo porque não estou preparada pra dar adeus a essa fic Gi ela é tão linda que me faz chorar enquanto leio....
    posta logo ja to ansiosa pelo proximo cap

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    1. Sim, era algo bem inesperado, eu tinha raiva, mas depois passei a gostar muito da Dianna <3
      Eles são fofos demais, vou sentir falta :(
      Posto, anjo. Beijos

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Nunca imaginaria que na verdade Diana era irmã de Patrick... estou chocada.
    A fic tá maravilhosa, é uma pena que esteja acabando :(
    Continua, beijos :*

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    1. Eu também fiquei meio assim "o que?"
      Verdade, vou sentir falta demais :(
      Beijos

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  5. A cada dia eu fico mais surpresa com essa fic. Nao quero q ela acabe!! E quero um Jonas desse pra mim <3

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    1. Quem não queria esse Jonas, oh Deus!
      Beijos

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  6. Diana é irmã de Patrick? What???
    Ai ceus esse Jonas <3 Quero pra mim
    Posta mais bjss

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    1. Pois é amor ioajsoia
      QUEREMOS <3
      Posto, beijos no core

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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