24.8.16

Capítulo Cinquenta e Um




Eles deviam ter caído no sono. Joe não conseguiu parar da primeira vez, nem da segunda. Ora, tinha sorte de ainda ter energia suficiente para erguer a cabeça. O restante dos convidados devia estar pensando que ele estava chateado. Não poderiam estar mais enganados. Joe estava em êxtase, saciado e ainda um pouco excitado — como era possível? Ele absorveu a visão da pele clara de Demi, do cabelo castanho-avermelhado que caía sobre os ombros. Incrível. Ela era incrível. Joe suspirou e olhou pela janela. Estava escuro. Ele se levantou da cama em um pulo quando ouviu vozes que se aproximavam.
— Demi! — Ele a cutucou. — Acorde!
O lençol que a cobria escorregou. Joe travou uma batalha interior. Deveria possuí-la outra vez, mesmo sabendo que a porta poderia estar destrancada, e com a possibilidade de dar a vovó uma bela visão do que acontecia quando ele era mandado para o quarto com uma garota incrivelmente sexy? Vovó gritou alguma coisa. O medo venceu.
— Vamos! — Ele recolheu o vestido de Demi do chão e o jogou para ela. Joe pegou as calças e a blusa e se vestiu o mais rapidamente possível. Quando a maçaneta girou, ele estava tentando ajeitar os lençóis. A porta se abriu. Demi se sentou na beirada da cama, uma das mãos sobre a outra. Joe se juntou a ela e suspirou. Vovó entrou no quarto.
— Onde vocês dois estavam?
— Aqui. — Joe pigarreou. — Foi você quem nos mandou para cá, para início de conversa.
Nick e Selena entraram em seguida. Ah, que maravilha! Joe tentou esconder a culpa em seu rosto, mas o olhar do irmão indicou que estava fazendo um péssimo trabalho ao tentar parecer inocente. Não era culpa dele que não conseguisse deixar de sorrir como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Sentiu o sorriso se alargar ainda mais. Bem, era melhor aceitar que não estava escondendo nada do irmão.
— O que os dois estavam fazendo aqui... sozinhos? — Vovó cruzou os braços, e as pulseiras balançavam em seus pulsos. — Nada de safadezas, né?
— Não, senhora. — Joe balançou a cabeça e pigarreou. — Estávamos só brincando de...
— Mímica — completou Demi.
— Com duas pessoas só? — Vovó olhou desconfiada para a cama atrás de Demi.
— Claro. — Joe engasgou com a risada: jogar mímica pelado, um clássico. — É um jogo novo.
Nick gemeu alto.
— Eu que queria jogar mímica!
— Encontre outra pessoa para jogar com você! — retrucou Joe.
— O problema não é encontrar a pessoa, é o juiz da partida. — Ele olhou feio para vovó.
— Ainda estamos conversando sobre mímica? — perguntou vovó, inocentemente.
— Claro! — Demi deu uma risada falsa. — É que... hã... O jogo ficou um pouco intenso.
— Aposto que ficou — resmungou Nick.
— Quem ganhou? — perguntou Selena.
 — Eu — responderam Demi e Joe, ao mesmo tempo.
— E quantas vezes vocês jogaram? — perguntou Selena, recebendo uma cutucada de Nick bem nas costelas.
— O que foi?
— Não está ajudando.
— Foi mal — murmurou a noiva enquanto Joe viu Demi erguer quatro dedos. Selena fez um sinal de positivo.
— Não que qualquer um desses meus netos ridículos esteja prestando atenção em mim... — Vovó andou até a cadeira onde o sutiã de Demi estava pendurado e se sentou. Joe arregalou os olhos. Nick deu uma risadinha.
Selena andou de mansinho até vovó e jogou o sutiã no chão, antes de falar: — Eu estou prestando atenção, vovó.
— É que eu precisava contar tudo a Demi e Joe, antes que seja tarde demais.
— Tarde demais? — perguntou Demi. — Para quê?
— Para anularem o casamento, é claro! — gritou vovó. — Com o que mais eu estaria preocupada?
Joe abriu a boca, depois fechou.
— Por que a gente precisaria anular alguma coisa? Não estamos casados.
— Então... — Vovó brincou com um fio solto da blusa. — Parece que o documento que vocês assinaram como testemunhas do noivo e da noiva... Bem, tecnicamente vocês dois são marido e mulher, agora. — Ela ergueu os ombros. — Ops?
— Ops? — repetiu Joe. — Ops uma ova! Você planejou isso!
— Como ousa! — Vovó ficou de pé. — Nem mesmo eu seria capaz de algo tão baixo quanto fazer meu neto favorito se casar sem saber.
— Eu era o favorito, hoje de manhã. — Nick sentiu a necessidade de acrescentar. Vovó o ignorou.
— Vocês vão ter que ficar casados, já que esta família não acredita em divórcios. E, pelo estado de Demi, imagino que já tenham... — Vovó teve a decência de corar — ... brincado de mímica. — Então, parecendo lembrar-se de quem era e de que não tinha pudores, ela se virou para Demi. — Me conte, querida, como foi o jogo?
Demi corou e pegou a mão de Joe.
— Mudou minha vida, fez a terra tremer e me ajudou a encontrar minha alma gêmea.
Joe sentiu o coração bater um pouco mais depressa com aquela admissão. Demi repetira as palavras dele. Ah, que se dane! Ele agarrou a nuca de Demi e a beijou até perder o fôlego. Seus lábios se encontraram, frenéticos. Ele interrompeu o beijo cedo demais, sorrindo como bobo.
— Exibido — resmungou Nick.
— Ora, querido! Amanhã, quando estiver casado, poderá brincar de mímica quantas vezes quiser! — Vovó deu tapinhas no braço do neto mais velho. — Quem sabe? Talvez sua avó tenha um tempinho para uma noite de jogos na casa do sr. Casbon.
— Nossa, espero que não! — murmurou Joe.
— Bem... — Vovó, parecendo muito feliz consigo mesma, se levantou da cadeira. — Agora que resolvemos isso, temos que voltar aos assuntos mais urgentes. Joe, você e Demi estão encarregados de fazer com que os bonequinhos do bolo cheguem ao cozinheiro, e não se esqueçam da dança que vão apresentar.
Joe soltou um palavrão.
— De repente, me sinto tão melhor — comentou Nick em um tom superior.
— Dança? Que dança? — perguntou Selena.
— Não estrague a surpresa. — Nick a guiou para a porta e deu um último sorriso de expectativa para Joe.
— Para cama, vocês dois! — Vovó empurrou Nick e Selena para fora do quarto. — Eles já estão casados. Mas vocês dois ainda vão passar mais uma noite sozinhos, antes de poderem jogar esses joguinhos.
— Odeio você, Joe! — gritou Nick enquanto era empurrado para fora do quarto.
— Bons sonhos, Nick!
Ainda deu tempo de Joe ver o dedo do meio do irmão antes de a porta se fechar atrás de vovó.
— Ela planejou. — Demi sacudiu a cabeça. — Aquela mulher maldita planejou tudo.
Joe se sentou na cama, depois se deitou.
— Ela devia receber um diploma honorário de Harvard, ou coisa parecida.
— Será que lá tem algum curso de manipulação? — indagou Demi.
— Não é bem manipulação. Está mais para a arte da guerra.
— Aposto que ela foi um general, na vida passada — concordou Demi.
Os dois ficaram em silêncio por um momento. Joe segurou a mão dela.
— Eu tinha um discurso bem romântico planejado e, de repente, percebi que não jantei e estou morrendo de fome. Quer ir atacar a cozinha comigo?
— Claro. — Demi se levantou da cama. — Não consegui nem terminar meu vinho! — Ela parecia horrorizada.
— Pense nas pobres crianças da África! Não acredito que você não tenha terminado o vinho. Sabia que eles não têm nem vinho para beber, lá?
— Muito engraçado. — Demi saiu na frente dele.
Vovó já estava posicionando a cadeira no meio do corredor. Ouviram um latido. Joe se encolheu. O latido ficou mais alto. Ele olhou para baixo, e... Mas que merda! Vovó tinha comprado um cachorro igual a um ewok, de Stars Wars!
— O que é isso? — Ele apontou para o animal escandaloso e rezou para que estivesse tendo uma alucinação. Aquilo era pequeno e pentelho demais, não podia ser um cão de guarda.
— É o meu protetor. — Vovó pegou o cachorro no colo. — Não é mesmo, Charles Barkley? Não é?
— Você o batizou em homenagem a um jogador de basquete? Eu nem sabia que você gostava de basquete.
Vovó deu de ombros.
— Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe. E considero aquele homem.... fascinante. É tão grande e dominador, entende?
Joe preferiu não entender, para não ter pesadelos pelo restante da vida.
— Vovó, por favor, nunca mais diga isso em voz alta.
— O quê? — Ela deu de ombros. — É verdade. Além do mais, percebi que meu apito não é o suficiente para me proteger de intrusos. Mas o pequeno Charles aqui faz um ótimo trabalho. Bem, eu durmo como uma pedra!
— Você mora com mamãe e papai — comentou Joe.
— Mas moro no primeiro andar! — disse vovó, exasperada. — Quando eu conseguir pegar o apito, os invasores já estarão dentro do quarto! E, se entrarem lá, adeus vovó! — Bem, Joe não tinha muita certeza de que ela partiria sem lutar. O intruso é que provavelmente sairia traumatizado. Demi assistia à conversa e se divertia.
— Então, vovó, é para isso que serve a coleira de choque?
— Ah. — Joe assentiu. — Agora faz sentido!
— O quê? — Vovó colocou o cachorro na poltrona.
— A coleira de choque. É para Charles?
— Não! — Vovó fez carinho no cachorro. — Ele é um bom garoto! Um bom garoto! — Ela se virou para Joe. — Charles é treinado.
O cachorro latiu outra vez.
— É o cachorrinho perfeito. Escuta cada palavra que digo.
Os latidos continuaram.
— Ora, sabe até francês!
O cachorro latiu em concordância.
— Como é que você sabe? — Joe olhou feio para o cachorro, que mostrava os dentes para ele. Vovó ergueu a mão no ar, impaciente.
— Ele nasceu na França, oui, oui.
O cachorro parou de latir e se sentou.
— A coleira foi para assustar Nick.
— Valeu, vovó! — gritou Nick, de um dos quartos.
— Eu te amo, Nick! — gritou vovó em resposta, dando a impressão de que iria quebrar a barreira do som com a voz.
— Certo... — Joe se afastou devagar. — Bem, Demi e eu vamos comer alguma coisa. Já voltamos. Como é que passamos do cão de guarda?
— Joe... — Vovó sacudiu a cabeça. — Estou decepcionada. Você, dentre todas as pessoas, devia saber como passar por um cachorro. Afinal de contas, já foi um, não é mesmo?
— Ponto para a vovó — comentou Demi, atrás deles. Ele estreitou os olhos com a risadinha da avó.
— Como é que passamos pela droga do cachorro?
— Pense nisso como um outro jogo. — Vovó o dispensou com um gesto. — Aproveite a comida!

*****

Desde quando eu comecei a postar essa adaptação e vocês reagiam bem e comentavam, eu era louca pra chegar nesse capítulo e perguntar se vocês desconfiaram que a vovó havia, na verdade, casado-os quando os fez assinar aqueles papéis, porque eu, quando li, desconfiei, udhusbh. Mas, infelizmente, com toda a minha demora (e peço desculpa mais uma vez), perdi quase todas as leitoras :( mas enfim, se tem alguém lendo, deixa um comentário sobre o que achou, ou se tiverem twitter, me chamem lá no @wildfzre. Amanhã tem mais, amores! Se cuidem, beijos. 

Capítulo Cinquenta




Sem responder, Demi ficou na ponta dos pés e o beijou. Sua língua buscou a dele, abrindo caminho de leve na boca de Joe, que retribuiu o beijo de modo hesitante. Demi pôs as mãos no peito dele e o empurrou para a cama.
— Que Deus tenha piedade de você, Joseph Jonas, se deixar um bilhete de agradecimento depois desta noite! Porque vou atrás e mato você! Joe jogou a cabeça para trás e riu.
— Isso quer dizer que você me ama?
— Não. Isso quer dizer que uma mulher desprezada não é uma visão muito bonita.
— Ah. — Ele pareceu desapontado.
— Mas — ela deu de ombros — já que está na hora das confissões... — Demi deixou o restante das roupas caírem no chão e deu um passo à frente — ... posso dizer que amo você desde a primeira vez que o vi.
— Você começou a me amar quando eu tinha 7 anos e me escondi no armário dos meus pais, porque estava com medo dos fogos de artifício de 4 de julho?
— Você era loiro — comentou Demi, relembrando em voz alta. — Agora, seu cabelo é escuro, mas, quando era pequeno, você era bem loirinho. Eu me lembro de pensar que queria tocar em seu cabelo, que era tão bonito...
Joe sorriu, sem dizer nem mesmo uma palavra, e a absorveu com os olhos.
— Queria que meu primeiro beijo tivesse sido com você — admitiu Demi, então avançou de quatro pela cama e pôs uma perna de cada lado do corpo dele.
Joe se inclinou para a frente e sussurrou, junto à boca de Demi: — Que tal o último beijo ser comigo?
— Do que você...
— Eu amo você... estou apaixonado por você. — Joe segurou o rosto dela. — Quero tudo com você, quero você inteira...
Joe a tomou em um beijo fervoroso e passou os dedos por seus quadris, puxando-a mais para perto. Os lábios dele deixaram uma trilha que pegava fogo em seu pescoço enquanto Joe tocava seu corpo de olhos fechados. Devagar, ele correu as mãos até suas pernas e depois subiu de volta, até envolver seus seios. Umedecendo os lábios, ele tirou as mãos e se afastou.
— Joe?
— Não quero que seja assim. — Ele foi até o interruptor e acendeu as luzes. Demi fez menção de cobrir o corpo. — Não faça isso. — Joe balançou a cabeça. — Quero ver você. Quero que dessa vez... — ele observou os lábios de Demi — … preciso que dessa vez seja diferente.
— Joe...
— Demi, você não é só uma marca na minha cabeceira, como você diz — explicou Joe. — Você não é só mais uma. Isso que vamos compartilhar não é uma noite de bebedeira. Não é mais uma das minhas noites de galinhagem. Não tenho nada a oferecer, a não ser a mim mesmo, e não quero nada em troca, além de cada pedaço do seu coração.
Demi concordou com a cabeça, devagar.
— Diga — pediu ele, rouco.
— Você o tem — sussurrou Demi.
— O que eu tenho? — Ele andou devagar até a cama.
— Meu coração. — Demi se apoiou nos joelhos. — A mim, você me tem inteira, cada pedaço. Quero que você possua tudo.
Ele foi até ela e então fechou os olhos.
— Eu juro que nunca vou deixar escapar.
— Quando foi que você ficou tão romântico?
— Não sei. — Ele a puxou para os braços. — Quando foi que você ficou bonita a ponto de me fazer querer escrever poemas?
— Me beije.
— Não. — Joe a afastou. — Vou fazer isso bem devagar.
— Por favor, faça rápido — choramingou Demi, sentindo a falta daquele toque que era como um vento gelado contra o corpo.
— Não. — Os dedos de Joe roçaram seu queixo. — Quero curtir cada momento.
Demi quase levou um susto quando Joe puxou seu rosto para o dele e lambeu seu lábio inferior, depois o sugou, deslizando a língua por entre os dentes para sentir seu gosto.
— Meu Deus, você é maravilhosa! — murmurou contra seus lábios, mordiscando e explorando sua boca.
Enquanto Joe corria as mãos por todo seu corpo, era impossível pensar ou fazer qualquer coisa que não fosse corresponder às carícias, ao toque, ao amor. Suspirando, ele a pegou no colo e a carregou até a cama, colocando-a gentilmente entre os lençóis. Ele se afastou para olhá-la, os olhos tomados de desejo, mas ainda assim se segurou. Sorrindo, Joe passou os dedos em seus cabelos e os espalhou pelo rosto de Demi, penteando-os diversas vezes, hipnotizado pelo contato dos fios com a sua pele.
— Sonhei com esse momento — revelou Joe. — Com o jeito como seu cabelo ficaria, espalhado pela cama, nos lençóis de cetim... na verdade, em qualquer coisa. Ele é lindo. Você é linda.
Demi abriu a boca para responder, mas ele a calou com um dedo. Joe se aproximou e beijou seu pescoço, e em seguida a orelha, lambendo-a na pontinha e depois soprando perto do ouvido, provocando arrepios por todo o corpo de Demi.
— Você é tão sensível! — Os lábios dele passearam por sua mandíbula, desceram para o pescoço e foram até a outra orelha.
Joe repetiu o processo, em seguida deu um beijo molhado entre seus seios, soprando a parte úmida com suavidade. O corpo de Demi se encheu de vida outra vez, cada nervo à flor da pele, esperando, ansioso, pelo toque seguinte de Joe. As mãos quentes dele envolveram a bunda de Demi, acomodando-a na cama. Quando ele se inclinou sobre ela, Demi sentiu que o calor daquele corpo a queimava. Sem deixar de olhá-la nos olhos, Joe deslizou as mãos até as coxas de Demi.
— Esta noite não é minha. É sua, só sua.
— Mas...
Demi parou de raciocinar ao sentir o toque habilidoso de Joe. Quando ela soltou um gemido, Joe beijou sua testa e depois suas pálpebras, então passou a massageá-la, das coxas até as panturrilhas, depois subindo até os ombros. Parecia que o melhor sonho erótico de sua vida tinha se tornado realidade. Cada beijo, cada sensação, era como uma droga. Quando Joe finalmente a penetrou, Demi já estava tão perto, que não conseguiu não gritar o nome dele. E foi então que o autocontrole de Joe, sua lentidão dolorosa e a paciência desapareceram. Em seu lugar havia um homem apaixonado, selvagem e possessivo, disposto a fazer qualquer coisa para reivindicar Demi para si.
— Eu te amo — sussurrou ele enquanto seus corpos se moviam juntos, cobertos de suor. O mundo de Demi explodiu. Mudou. As cores ficaram mais brilhantes; as sensações, mais intensas; e sua alma se uniu à dele. — Para sempre — sussurrou Joe, sem fôlego. — Você é minha para sempre.

*****

23.8.16

Capítulo Quarenta e Nove




Virgem. Ela era virgem. Ele a usara para sexo casual e, fazendo isso, poderia ter arruinado a garota perfeita. A garota mais maravilhosa do mundo, sua alma gêmea. Joe deu um beijo carinhoso na testa dela e se afastou.
— Aonde você vai? — perguntou Demi.
— A lugar nenhum — respondeu ele, e estava falando sério. Não iria a lugar algum, a não ser que ela fosse junto. Deixou as calças caírem no chão e se aproximou da cama. Demi o encarou.
Droga, ele poderia observá-la o dia inteiro! O cabelo castanho-avermelhado caía sobre o sutiã de renda vermelha. Demi tinha mesmo comprado lingerie. Caía bem nela, bem até demais, considerando os pontos pretos que estavam surgindo em sua visão. Ia perder a cabeça se não pudesse tê-la naquele instante. Joe se ajoelhou na cama.
— Tenho uma coisa a dizer.
— É mesmo? — Demi tremeu sob o toque dele. Joe pegou sua mão e envolveu seu dedo com a boca, sugando-o.
— Estou com ciúmes deste dedo há uma hora. Na verdade, fiquei com ciúmes até do chantilly.
Ela gemeu.
— E agora?
— Agora quero lamber você. — Ele colocou as mãos no quadril dela. — Inteira. Sem me esquecer de nenhuma parte.
— Nenhuma? — Ela arqueou as sobrancelhas.
— Nenhuma — repetiu Joe, beijando-a, aprisionando seus lábios.
Ele a pressionou contra a cama e a beijou, absorvendo-a, e então percebeu, naquele momento, que o gosto dela ficaria gravado nele para sempre. Tudo nela combinava perfeitamente com ele, que só estivera cego demais para notar, antes. E agora nunca a deixaria ir embora. Os lábios de Joe se encontraram suavemente com os dela, enquanto ele pressionava seu corpo contra o calor do corpo dela. Mas, quando ela suspirou, ele se afastou.
— Que foi?
— O que mudou?
As palavras não vinham. Então Joe não só havia perdido o jeito, como também parecia incapaz de comunicar uma das coisas mais importantes que tinham acontecido em sua vida.
Demi fechou os olhos de leve. Quando os abriu outra vez, estavam marejados. Joe segurou o rosto dela entre as mãos e respondeu, bem baixinho:
— Eu. Eu mudei.
Ela franziu a testa.
— Fui eu, não você. Você sempre foi constante. Não importava se queria me esfaquear ou me beijar, você nunca mudou. Fui eu, estou diferente.
— Simples assim? — Demi parecia cética.
Mas que droga! Ele queria primeiro se perder nela, e só depois ter a conversa séria. Mas sabia melhor que qualquer um que as mulheres não eram assim. Então, com o autocontrole que raramente conseguia ter, Joe se afastou e se sentou na cama, apenas de cuecas, esperando que Demi também se sentasse.
Quando ela se sentou, Joe a envolveu com os braços e a tirou da cama, carregando-a até o banco junto à janela, onde poderiam olhar para o lago, para suas memórias antigas — o passado dele. Quando Demi estava acomodada em seu colo, Joe pegou um cobertor da cesta no chão e os cobriu. O contato com a pele dela fazia seu corpo inteiro formigar. Os dois estavam na cadeira, juntos, com as pernas emboladas. Joe apoiou o queixo no topo da cabeça de Demi e a abraçou de lado.
— Foi bem ali, perto do deque.
Demi suspirou.
— O quê?
— A primeira vez que me droguei.
Ela enrijeceu. Joe engoliu em seco.
— Eu ainda era um garoto, além de um idiota, jovem e arrogante demais. Sei o que está pensando: algumas coisas nunca mudam. Mas não consigo nem imaginar no que eu teria me transformado se ele não tivesse me encontrado.
— Ele?
— Bill. — Joe apertou as mãos de Demi. — O pai de Selena. Eu tinha bebido tanto naquela noite! Tive sorte de continuar vivo. Não parava de beber porque não parava de cheirar cocaína. Me sentia invencível, como se pudesse voar. Quer dizer, não fiquei nem um pouco cansado. Só queria passar a noite acordado, na farra. Eu me sentia um adulto, achava que aguentaria.
— O que aconteceu?
Joe riu.
— Bem, meus pais estavam passando o fim de semana fora. Eu tinha ficado em casa com Nick, mas ele tinha saído com alguns amigos e me deixado sozinho. Então, dei uma festa. Só algumas pessoas. Todas estavam no último ano do colégio ou eram ainda mais velhas. Fiquei me achando o máximo. “Bem, continuando.” — Joe pigarreou. — Meu pai tinha pedido a Bill que ficasse de olho na gente durante o fim de semana. É claro que eu não sabia. Ele me encontrou dentro d’água: eu tinha caído do deque e batido a cabeça em um dos barcos amarrados. Todos os meus supostos amigos estavam chapados demais e não repararam. Mas Bill pulou na água. Ele salvou a minha vida.
Demi apertou ainda mais as mãos dele e disse:
— Acho que... É de pensar que, depois de um momento tão “revelador”, a pessoa mudasse o estilo de vida. Não entendo.
— Eu mudei. — Joe deu de ombros. — Por um tempo. Tirei boas notas, pratiquei todos os esportes possíveis, pedi milhares de desculpas a Bill. Ele só contou para a mulher dele, não disse nada a meus pais nem a Selena. Aquilo nos aproximou. Ele era o meu exemplo. Eu o respeitava. Tinha sido a primeira vez, na minha adolescência, que um adulto me tratava como adulto, então eu quis que ele sentisse tanto orgulho de mim quanto sentia de Nick e Selena.
Tremendo, Joe fechou os olhos e murmurou um palavrão. Por que era tão difícil? Talvez porque fosse a primeira vez que contava aquilo em voz alta, e para alguém com quem se importava de verdade, alguém que amava. E, ao expor a alma, percebeu como era assustador amar outra pessoa. Ao amar, você entregava ao outro o poder de feri-lo, de rejeitá-lo. E Joe sabia, lá no fundo, que, no instante em que mostrasse quem realmente era, a máscara cairia e restaria apenas ele, Joseph Jonas, um homem devastado. Depois de tudo aquilo, será que Demi ainda o desejaria? Ou será que o deixaria, como ele merecia que ela fizesse?
— Na faculdade — continuou —, Selena e eu éramos inseparáveis. Sei que você sabe de todos os detalhes sórdidos. Quer dizer, tenho quase certeza de que era você quem me xingava por mensagem de texto de um número desconhecido, o que durou o ano inteiro.
Demi riu.
— Então. — Joe sorriu. — Dormimos juntos na faculdade... Mas naquela noite... Merda, eu sabia o que estava fazendo! Disse a ela que eu era jovem e idiota, mas eu sabia. Só não me importava. Sabia que mudaria nossa amizade. Sabia que mudaria, mas, ainda assim, queria. Ainda a queria, mesmo sabendo que não iria além daquela noite. Acho que, lá no fundo, sempre soube que nos dávamos melhor como amigos. Bill já tinha dito diversas vezes que garotos e garotas não podiam ser amigos. Acho que ele estava tentando me avisar que, não importa a situação, os hormônios sempre assumem o comando. E quando misturamos álcool com hormônios... — Como ele odiava contar aquela parte! — Selena não se lembra de muita coisa, mas eu lembro.
— Como assim? — perguntou Demi, baixinho. Bem, era hora.
— Bebemos a mesma quantidade, mas ela é bem menor que eu. Ela lembra que transamos e que foi esquisito, mas acho que não lembra que chorou. Ou que, no meio do caminho, me pediu que parasse. Disse que não queria decepcionar o pai...
Demi se virou para encará-lo.
— Você não parou, não foi?
— Não. — Joe quase engasgou com aquela palavra. — Eu disse a ela que tudo bem, que era normal ter medo. Disse... — Joe fechou os olhos. — Disse a ela que a amava. E que, já que eu a amava, estava tudo bem.
Demi terminou a história para ele.
— E aí você foi embora.
— Como o babaca que era, eu fui embora. — Joe suspirou. — Saí do alojamento dela e fui direto para a república. Estava me sentindo tão culpado que só queria ficar anestesiado. Desaparecer. Então, enchi a cara, acordei na cama de outra garota e descobri, algumas horas depois, que enquanto eu traía Selena e Bill... Os pais dela sofreram um acidente e morreram.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, até Joe voltar a falar: — Sabe qual foi a pior parte? Era uma espécie de encruzilhada. Eu podia ter ido até ela, pedido desculpas, lamentado a morte deles ao lado dela. Podia ter sido o amigo que ela merecia que eu fosse. Mas, em vez disso, culpei a mim mesmo. Senti como se a morte dos pais dela fosse culpa minha, acreditei que, se eu tivesse parado quando ela pediu, os dois ainda estariam vivos.
— Joe. — Demi segurou o rosto dele. — Isso não é verdade, e você sabe disso. Não poderia ter evitado o que aconteceu com alguma coisa que deixasse de fazer, assim como não poderia ter provocado tudo.
— Acho que agora já sei — respondeu ele. — Mas ainda me sinto mal. Isso sempre me assombrou, e, para ser sincero, era fácil demais ignorar, me entregar à ideia de que eu podia viver pelo prazer, fazendo o que quisesse. Queria ficar o mais longe possível de Selena e de tudo o que ela representava.
— Ela confiou o coração a você...
— E eu o parti — concluiu Joe. — Em um milhão de pedacinhos. E, quando tive a chance de consertar, pisei neles, destruindo toda a nossa amizade.
Demi estava cabisbaixa, sem se mover.
— No que você está pensando? — sussurrou Joe, sabendo muito bem que estava soando como uma mulher, mas sem se importar.
— Estou triste por você. — Demi passou um dedo por seu peito. — Triste por aquele garoto de 14 anos que ainda está lutando para se tornar o homem que deveria ser.
— Eu sou. — Joe segurou o rosto dela. — Sou esse homem. Quero ser esse homem. Você me faz querer ser.
Demi olhou bem em seus olhos, procurando, esperando.
— Nick me deu uma coisa, hoje. — Joe a afastou com gentileza e andou até a cômoda, então abriu a gaveta e pegou a carta.
— O que é isso? — Demi tomou o papel das mãos dele.
— Uma carta de Bill.
Notando o assombro de Demi, Joe continuou falando:
— Nick tinha recebido a ordem de me entregar apenas se atendida uma condição.
— Qual?
— De que eu estivesse apaixonado.
A carta caiu das mãos de Demi e planou até o chão.
— Está falando sério?
Em dois passos, Joe estava na frente dela. Ele a ergueu nos braços e a beijou na boca, absorvendo cada parte dela.
— Sim. Eu amo você, e sinto muito por vir com todo esse passado. Sinto muito por ter beijado uma garota e tê-la feito chorar. Sinto muito que essa garota tenha sido você. Sinto muito por não ter me comportado como o homem que fui criado para ser. Mas ao seu lado, Demi — mais um beijo fervoroso —, sou esse homem. Você me faz ser esse homem, porque me faz acreditar que posso ser.
Demi assentiu enquanto algumas lágrimas escorriam por seu rosto.
— O que ela diz? — perguntou, apontando para a carta.
— Tudo o que eu precisava ouvir — respondeu Joe com sinceridade. — Tudo o que eu não queria ouvir. Disse que você deveria sorrir mais do que chorar. — Ele secou as lágrimas que escorriam pela bochecha dela. — Disse que eu deveria ver você como uma parceira, não apenas como amante. — Ele segurou as mãos dela diante dos lábios e beijou cada um dos dedos. — É quase como se ele soubesse que eu ia fazer merda, mas me amasse mesmo assim.
— Joe, isso é que é o amor.
— Amor. — Joe sorriu. — Amor não é algo que vem sem esforço: ele machuca. Quando olho para você, parece que meu peito vai explodir. Quando você me toca, sinto em todos os lugares do corpo. Quando você inspira, seguro o ar até você expirar. O amor é um inferno. É uma tortura. Pode deixar a gente maluco, é a coisa mais assustadora que já senti. Parece que acabei de entrar em um prédio em chamas... Mas você é a minha água, Demi. Só preciso saber de uma coisa.
— O quê? — sussurrou ela.
— Você vai me salvar?

*****

Até amanhã, anjos.