1.9.16

Capítulo Sessenta e Um




— Está pronta? — sussurrou Joe, no ouvido de Demi. Ela balançou a cabeça. Como alguém poderia estar pronto para aquilo? Eles iam fazer a droga da dança do acasalamento na frente de todo o mundo, embora a dança não remetesse diretamente àquilo — estava mais para um tango, mas ainda assim.
Não conseguia entender por que vovó estava forçando os dois a se apresentarem, mas lá estavam, no meio da pista de dança, esperando a música começar. Então vovó pigarreou ao microfone.
— Ah, não — sussurrou Demi. — Isso não pode ser bom. Ela vai cantar durante a dança?
— Não acho que dê para ficar pior — murmurou Joe.
— Essa coisa está ligada? — Vovó deu batidinhas no microfone, provocando um barulho agudo, então deu uma risada bem alta. — Ah, adoro tecnologia!
— É, vovó, nós sabemos — disse Demi.
— Estou tão feliz em ver meus dois netos casados! A dança que vai começar foi minuciosamente planejada. Cada movimento tem um significado.
— Eu estava brincando — disse Joe. — Acabou de ficar pior. Ela vai explicar o ritual do acasalamento.
— O primeiro giro — começou vovó — significa o amor verdadeiro. O segundo, uma vida feliz para sempre nos braços um do outro. Os ancestrais acreditam que essa dança remeta aos ciganos. Eles acreditavam que uma dança poderia unir duas pessoas para sempre, apesar do lugar onde foram criadas, da raça, de feridas passadas...
Enquanto vovó continuava a falar, os olhos de Demi se arregalaram, assim como os de Joe.
— Então, meu presente de casamento para Demi e Joe é essa dança. Que eles aprenderam há algumas semanas. Surpresa! E aproveitem!
A música começou. Demi não conseguiu se mexer. Vovó tinha planejado tudo, a dança e todo o restante. Tinha certeza disso. Ela engoliu o nó na garganta quando Joe caminhou ao seu redor e a puxou para os braços dele. Ele a girou uma, duas vezes, sempre a encarando com tanta intensidade que teria sido impossível não se apaixonar de novo e de novo. Cada vez que Joe a girava, Demi via uma nova parte daquele sorriso que a encantava, que dizia “eu amo você” e “eu quero você”.
Joe a puxou para mais perto enquanto Demi envolvia a cintura dele com uma das pernas e se curvava para trás. Ele deu um beijo no pescoço dela e a girou outra vez. O resto da dança era cara a cara. Joe se inclinou para a frente, e seus lábios roçaram a bochecha de Demi.
— Eu sentiria a sua falta, mesmo que nunca a tivesse conhecido. Sentiria a sua falta, porque saberia que uma parte de mim nunca estaria aqui.
Ela prendeu a respiração.
— Mesmo se eu nunca tivesse conhecido você.... Eu ainda a desejaria.
Joe passou os dedos pelos ombros de Demi e puxou a cintura dela ainda mais para perto.
— Mesmo agora, sinto sua falta. — Os lábios dele roçaram sua orelha. — Porque, cada vez que toco sua pele, parece que você não está perto o bastante. Meu corpo dói, pedindo que a gente se aproxime mais. Mas, mesmo quando não tem nada além da pele a nos separar, meu desespero não diminui. Nunca vai diminuir. Porque o que eu desejo é a sua própria essência.
A dança terminou com os dois se encarando.
Demi fechou os olhos enquanto puxava o rosto de Joe mais para perto, passando os braços em volta de seu pescoço. Os dois estavam lá, parados. Os lábios deles se encontraram com suavidade, então Joe suspirou.
— Vou passar a vida correndo atrás de você, desejando, mimando, descobrindo você...
Com um gemido, seus lábios envolveram os dele. Joe a ergueu nos braços e a girou pela pista de dança, aprofundando o beijo, pressionando, buscando, explorando. Calor começou a emanar de todos os poros do corpo de Demi, que também sentia arrepios percorrerem os braços e as pernas. Joe pressionou mais ainda seu corpo contra o dela, e depois ainda mais, porém não era o suficiente. Ela tentou chegar mais perto.
— He-hem! — Fez vovó, pigarreando, e depois riu perto do microfone. — Talvez eu consiga um bebê antes da primavera!
Os convidados se juntaram à risada. A risada fraca de Joe aqueceu o coração de Demi. Como é que um homem que apenas algumas semanas atrás tinha medo de compromissos gostava da ideia de ter filhos? Era um milagre, isso sim! Com um suspiro, ele a soltou. Demi deslizou por seu corpo musculoso, até o chão.
— É hora de dançar! — gritou vovó, que então começou a cantar rap.
— Ah, meu Deus! — resmungou Joe. — E o momento tinha sido tão especial... — Demi riu.
A banda The Black Eyed Peas nunca soou tão bem. Pelo menos os convidados acharam graça, e, para dizer a verdade, vovó não era muito ruim. Nick e Selena se juntaram a Demi e Joe na pista de dança. Dançaram da melhor forma que podiam enquanto vovó passeava pelo palco cantando Tonight’s the night, let’s live it up. I’ve got my money...
— É melhor entrar na brincadeira. — Nick deu uma cotovelada em Joe.
Eles assentiram e começaram a pular. O restante dos convidados os imitou, transformando o que deveria ser uma dança romântica em uma festa animadíssima, em que vovó dominava o palco. Quando as primeiras músicas terminaram, Demi estava toda suada e precisava beber alguma coisa. Ela agarrou a mão de Joe e o levou até seus lugares na mesa. A música ficou mais suave. Vovó saiu do palco e se aproximou dos dois. Seus olhos brilhavam de animação.
— Como me saí? — perguntou.
— Maravilhosa — respondeu Joe. — Extraordinária, de verdade. Nunca tinha visto uma mulher de mais de 80 anos cantar rap. Aposto dez dólares que amanhã mesmo o vídeo vai estar fazendo sucesso na internet.
— Eu adoro o YouTube — disse vovó com um suspiro.
— O que aconteceu de tão importante? — gritou Petunia, caminhando até a mesa. O vestido azul brilhante acentuava os olhos azuis e o cabelo grisalho. — Tive que vir andando até aqui.
— Espere um pouquinho. — Vovó ergueu uma das mãos. Demi olhou ao redor. O que ela estava esperando? — Ah, lá vêm eles.
Um senhor de idade bem-apessoado veio na direção deles, amparado por um andador. Havia outro cavalheiro ao lado dele, uma bela figura de terno preto.
— Quem é aquele?
— Meu namorado. Na verdade, estamos pensando em nos casar no inverno. — Ela deu de ombros. — Aliás, ele tem um irmão. Gostaria que você o conhecesse.
— Não. — Petunia cruzou os braços. — Não vou fazer isso. Não vou...
— Nadine! — O sr. Casbon pegou a mão dela e a beijou. — Linda como sempre! E que música bonita você cantou, minha querida.
— Eu andei praticando. — Ela abriu um sorriso. Joe começou a rir, mas Demi deu uma cotovelada em suas costelas. Ele parou e tossiu.
— E quem é essa bela moça? — perguntou o outro homem, para Petunia. — Estou observando você a noite inteira, minha querida. Você é... maravilhosa.
— Hã. — Petunia olhou para vovó e de volta para o homem, então estendeu a mão. — P-Petunia.
— Ah, linda como uma flor! — Ele pegou a mão dela. — Gostaria de dançar comigo?
As bochechas de Petunia ficaram manchadas de um belo tom de rosa antes de ela assentir depressa e o seguir para a pista de dança.
— Vovó? — Joe pigarreou.
— Sim, querido?
— O sr. Casbon não tem irmão.
O sr. Casbon riu e desviou os olhos.
— Nesta noite ele tem, filho.
— Onde você o encontrou?
Vovó mexeu na parte da frente do vestido e examinou as unhas.
— Vovó — insistiu Joe —, onde você o encontrou?
— Ele é um acompanhante. — Ela dispensou Joe com um gesto. — E cobra uma nota, mas acho que os dois ficam uma gracinha juntos. Sabe, ele perdeu a esposa alguns anos atrás. Faz isso por diversão. Muitas viúvas precisam de companhia.
Demi ficou boquiaberta. Joe colocou a mão em seu queixo e o levantou.
— Vamos dançar? — Vovó agarrou o sr. Casbon e o levou para a pista, com andador e tudo. Chocada, Demi viu Petunia rir e dançar como se estivesse tendo a melhor noite da vida.
— Hum. — Joe balançou a cabeça. — Acompanhante?
— Bem, pelo menos ela está feliz — comentou Demi. — Quer dizer, olhe só para eles!
Rindo, Joe se levantou e puxou Demi.
— Não quero olhar para eles. Quero olhar para você.
— Ah.
— Você é linda.
— Esta coisa está ligada? — gritou Bets, ao microfone. — Ah, sim. Que bom. É hora de cortar o bolo.
Todos aplaudiram. Joe e Demi foram de braços dados até a mesa do bolo e então congelaram.
Os laços estavam derretendo.
— Merda — murmurou Joe. — Precisamos fazer alguma coisa.
O funcionário do bufê virou o bolo de frente para os convidados. Todos soltaram exclamações surpresas, que foram seguidas por muitos murmúrios.
— Faça alguma coisa! — Demi empurrou Joe na direção do bolo. — Agora!
Ele fincou os calcanhares no chão.
— Nada disso! Não vou sozinho. — Ele segurou o pulso de Demi e a puxou consigo bem na hora em que os noivos chegavam até o bolo. Nick foi o primeiro a reparar. Ele arregalou os olhos e se virou para Selena.
— Hã... Surpresa! — gritou Demi, alto o bastante para que todos ouvissem. Nick ficou boquiaberto.
— Surpresa?
— Nós... — Demi deu um tapa em Joe.
— Queríamos... — Ele tossiu. — Fazer... — Ele ficou pálido.
Ah, não. Não tinha nada a dizer, nada! Aquela não era a hora de perder o jeito! Selena e Nick esperaram. Finalmente, Joe baixou a cabeça. — Somos os piores padrinho e dama de honra do mundo! Não foi possível consertar a tempo. Por isso que está escrito...
— Tetas para sempre! — gritou vovó ao microfone. — E vou dizer que esses garotos Jonas adoram umas...
— Um brinde! — gritou Bets, interrompendo vovó. — A Nick e Selena.
Todos ergueram as taças enquanto os noivos iam até o bolo para olhar os bonequinhos.
— Ao menos eles se parecem com a gente — comentou Selena.
— E eu realmente gosto d...
— Do seu coração enorme! — interrompeu Bets. — Muito bem! Que maravilha, um bolo maravilhoso! — Ela virou o restante do vinho, parecendo prestes a desmaiar.
Joe suspirou.
— Vamos tirar isso de cima do bolo, antes que nossa mãe pire.
Demi caiu na risada.
— Ha-ha-ha, vamos descobrir as tetas. Entenderam?
Eles tiveram ataques de riso, até que alguém passou bolo no rosto de Demi. Foi Joe, aquele babaca! Então Nick fez o mesmo com Selena. E foi assim que a guerra começou. Até que Nick e Joe se entregaram, dizendo que não queriam estragar a maquiagem linda das garotas. Mas Demi e Selena sabiam que eles só estavam desistindo porque perceberam que iam perder. Afinal de contas, os rapazes Jonas nunca tiveram a menor chance.

*****

Faltam dois capítulos e o epílogo. Amanhã acaba, anjos. Beijos 

Capítulo Sessenta




— Pronto? — Joe deu alguns tapinhas nas costas do irmão, que se olhava no espelho e reclamava.
— Mas que inferno! Não consigo parar de tremer! — Nick fechou os olhos e balançou os braços, então começou a dar pulinhos.
— Bem, primeiro, pare de pular. — Joe colocou as mãos nos ombros de Nick. — Não é um jogo de basquete. Você não está nas finais do campeonato estadual.
— Certo. — Nick parou de se mexer e assentiu com a cabeça algumas vezes.
— E pare de fazer que sim com a cabeça. Você está parecendo um maluco.
— Merda. — Nick se sentou em uma cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. — Preciso dar o fora daqui antes que eu enlouqueça.
— Concordo. — Joe enfiou a mão no bolso da frente do casaco. — Mas, até lá, use isso.
Nick não olhou para ele.
— Joe, acho que as pílulas de Benadryl da vovó não são indicadas nessa situação.
— Não é uma pílula rosa. — Joe enfiou a pequena garrafa de bebida na cara de Nick. — É coragem líquida, meu amigo! Beba.
Nick abriu os olhos e pegou a garrafa de plástico.
— Hum, então é um remédio de Joseph Jonas? Gostei.
— Talvez seja apenas um remédio dos Jonas, apesar de mamãe costumar optar pelo vinho. — Joe deu de ombros. — De qualquer forma, não preciso levar todo o crédito.
Nick tirou a tampa e fez cara feia ao virar toda a garrafa de vodca barata, os 120 mililitros de uma só vez.
— O gosto disto é horrível.
— Roubei da vovó, então eu já imaginava. Nunca vi uma mulher gostar tanto de vodca barata. — Ele deu de ombros. — De qualquer forma, está quase na hora de ir até o altar. Que tal arranjar coragem?
Depois de alguns segundos, Nick respondeu:
— Pronto.
— Nossa, foi rápido!
— É, bem, foi só perceber que vou poder seduzir minha esposa em exatos 46 minutos. Talvez 44, se eu disser os votos rapidamente.
— Assim é que se fala! — Joe deu tapinhas nas costas dele. — Agora, vou sair para encontrar sua futura esposa. Parece que preciso ajudar certa garota a chegar até o altar.
— Se ela tropeçar, você ganha um olho roxo.
— Beleza! — gritou Joe, saindo do cômodo em busca de Selena.
Ele a encontrou parada na entrada da varanda dos fundos, esperando, enquanto uma música suave tocava ao fundo. Demi estava ao lado dela, as duas conversando em murmúrios urgentes. Até Joe pigarrear e indicar que estava lá. Selena se virou primeiro, com os olhos brilhantes de animação.
— Eu só, hã... — Demi apontou para algo atrás de Joe. — Vou ficar por ali até chegar a minha hora de andar até o altar.
Joe sentiu o perfume de Demi quando ela tentou passar direto por ele. O que não ia acontecer. Ele a agarrou pela cintura e a beijou na boca.
— Você não pode passar por mim sem dizer nem um “oi”.
Os lábios de Demi tocaram os dele outra vez.
— É assim que dizemos “oi”, agora?
— É. — Joe abriu os lábios dela com a língua. — Claro que é.
Interrompendo o beijo, Demi deu uma piscadela safada e foi embora. Joe ainda estava olhando para ela quando Selena falou:
— Nunca pensei que veria este dia.
— O quê? — Joe coçou a cabeça, nervoso, e se aproximou de Selena. — Que dia?
— Você sabe. — Ela cruzou os braços e indicou com a cabeça a parte do cômodo onde estavam Demi e as outras madrinhas. — O dia.
— Ainda não entendi.
Ela deu de ombros.
— Pode chamar de puberdade. Você cresceu e se apaixonou.
— Então, agora eu sou um homem? — Joe piscou.
— Parabéns! — Selena riu. — Ah, meu Deus! Aposto que você deve até ter cabelo no peito! — Joe fez cara feia. Sempre fora um metrossexual, e talvez levasse as coisas um pouco longe demais, ao fazer limpeza de pele uma vez por mês. Ele deu um tapa para afastar a mão de Selena, que tentava tocar seu peito. Peste!
— Está pronta? — perguntou, mudando de assunto.
— Acho que sim.
— Que bom. — Joe riu. — Prepare-se para ficar de boca aberta. Na verdade, prepare-se para chorar. Ouvi dizer que você e vovó tiveram uma boa conversa.
— Aquela mulher não consegue guardar segredo nem que sua vida dependa disso — resmungou Selena.
— Bem, vou deixar Demi alerta, só por precaução. — Joe esticou o braço e segurou a mão da amiga. — Selena, conheço você desde que era uma garotinha usando maria-chiquinha. Você era obcecada pela Barbie e me disse que eu devia ser seu Ken. Na verdade, tenho certeza de que fiz o papel de Ken mais vezes do que gostaria de admitir.
Selena deu uma risadinha e continuou a ouvir.
— Nós rimos juntos, choramos juntos, gritamos um com o outro, brigamos, nos odiamos... — Joe tentou controlar as emoções.
Droga. Não era só Selena que iria acabar chorando. Ele se sentia prestes a perder o controle.
— Eu parti seu coração e nunca o consertei. — Ele umedeceu os lábios e suspirou. — Nick consertou.
Selena pegou a mão de Joe e a apertou.
— Meu irmão o consertou — repetiu Joe, fechando os olhos por um breve momento. — Sel, eu aceitei seu coração, na faculdade. Aceitei, mas não fui cuidadoso. Fui descuidado, jovem, idiota, você decide. — Ele soltou a mão da amiga e enfiou a dele no bolso, para pegar um presente. — Então, aqui estou, devolvendo-lhe os pedaços, para que meu irmão possa ficar com tudo. Nick merece. Queria consertar o que eu quebrei. Queria desfazer o que deu errado, mas você sabe que isso é um tanto difícil de fazer, então aqui... — Ele ergueu a presilha de cabelo. — É um coração azul, de safira. A coisa azul que você vai usar também é a coisa nova. — Ele deu de ombros. — Eu sempre te amei, Sel. — Ele ajeitou a presilha no cabelo dela e beijou a amiga na testa. Selena deu um tapa no ombro dele.
— Pare de me fazer chorar!
— Foi mal! — Ele se afastou e ergueu as mãos.
— Ah, venha cá! — Selena o puxou para mais um abraço apertado. — Obrigada, Joe. Por tudo.
Ouviram música vinda do lado de fora da casa.
— Bem, eu ainda não terminei aqui. — Ele estendeu o braço no instante em que seu pai aparecia, dobrando o corredor.
— Está pronta, querida? — perguntou o pai de Joe, enxugando algumas lágrimas ao dar um beijo no rosto de Selena.
— Pronta. — Ela engoliu em seco e passou uma das mãos pelo braço de Joe e outra pelo do pai dele. — Vamos lá.
Demi se aproximou com o buquê da noiva. Joe deu uma piscadela antes de se virar para a porta. Selena tremia a seu lado.
— Mãe, pai, eu amo vocês — sussurrou Selena.
— Estou tão orgulhoso de você! — disse o pai de Joe, e deu para ver uma lágrima caindo por sua bochecha, antes de ele virar o rosto. — E sei que eles também estão.
Joe apertou mais o braço dela e assentiu para o pai, lutando com todas as forças para não se entregar às próprias emoções. Mas era difícil. Ainda mais quando a música começou. E, simples assim, as lembranças voltaram. A cerimônia era perto da casa da árvore. Selena voltou no tempo, e se viu, com 5 anos, correndo em volta da árvore, fugindo de Joe. A mãe dela apareceu, gritando:
— Selena, largue isso! Não se atreva a jogar lama nele!
Selena não deu ouvidos. E sua memória retrocedeu mais alguns anos, na mesma casa da árvore, com o mesmo garoto. Joe estava mais velho. Ele e o irmão discutiam, e Nick disse que tinha encontrado uma cobra e a segurou bem na frente do rosto dela. Sua mãe e Bets vieram correndo da casa, gritando para que Nick a matasse. E então estavam no ensino médio. Nick a observava da casa enquanto ela e Joe caminhavam perto do rio. Ela olhou para trás e revirou os olhos quando ele e o pai dela apareceram na varanda dos fundos da casa e começaram a colocar o restante do equipamento de pesca na caminhonete.
— Se cuidem! — ela gritou.
— Sempre! — respondeu o pai, e, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa, o pai corre até ela com os braços bem abertos. — Quase esqueci!
— O quê? — Ela deu uma risadinha, correndo na direção dele.
— O príncipe sempre precisa de um beijo da princesa antes de ir para a guerra!
— Você não vai para a guerra, vai pescar peixes.
— E caçar leões, tigres e ursos! — O pai arregalou os olhos enquanto dava mais beijos em sua bochecha.
— Pare! — Ela o empurrou para longe e sorriu. — Está bem. Aqui está o seu beijo, gentil cavalheiro. — Ela fez uma cortesia enquanto seu pai se curvava. — Usará minhas cores, querido príncipe?
— Mas é claro. — O pai puxou um laço rosa do cabelo dela e o segurou. — Vou guardá-lo para todo o sempre, milady!
Quando Selena voltou ao presente, percebeu que todas aquelas lembranças, todo aquele tempo que passara em Jonas Abbey, fora como se os pais estivessem ali com ela, conduzindo-a em direção ao futuro. Nick ergueu o olhar.
De repente, parecia que ela não conseguia andar rápido o suficiente. Seus olhos encontraram os dele enquanto ia até a frente do terraço. Nick estava tão bonito naquele terno preto! O cabelo estava um pouco bagunçado e o bronzeado fazia o sorriso parecer ainda mais devastador. Nick deu dois passos na direção dela. Wescott soltou seu braço, assim como Joe, e o noivo estendeu o braço para pegar sua mão. Quando a pegou, virou-a para cima e fez Selena abrir o punho cerrado. E então colocou um laço rosa na palma da mão dela. Os olhos de Nick ficaram cheios de lágrimas quando ele se inclinou e sussurrou:
— Vou guardá-lo para todo o sempre.
Ignorando a tradição, que dizia que não se devia tocar no marido até que quem tivesse levado a noiva ao altar falasse com o pastor, Selena jogou os braços em volta do pescoço de Nick e caiu no choro. Levou cinco minutos até que conseguisse se recuperar. E mesmo assim devia estar com uma aparência péssima. Mas não ligava. Nick pegou o laço de suas mãos e o colocou debaixo da presilha que Joe dera.
— Então. — O pastou sorriu. — Quem traz esta mulher para este homem?
Wescott não respondeu, nem Joe. Selena olhou para trás e sentiu alguém tocar seu braço. Vovó. Ela abriu um sorriso enorme para a noiva e envolveu as mãos de Selena e de Nick com sua mão macia.
— Os pais dela e eu.
— E eu — disse Joe, à sua direita.
— E minha esposa e eu — acrescentou Wescott.
Selena nunca se sentira mais amada e em casa. E pensar que estava no mesmo jardim em que brincara a vida toda! Com um sorriso um pouco choroso, abraçou todos e se juntou a Nick diante do gazebo. Uma brisa quente começou a soprar. Selena olhou para a água no instante em que o pastor gesticulava para que os convidados se sentassem. E talvez estivesse imaginando coisas, mas podia jurar que vira os pais ali no deque, de mãos dadas, olhando para ela e sorrindo.

*****

Capítulo Cinquenta e Nove




Em duas horas, estaria casada. O coquetel tinha sido ótimo, mas era hora. Selena escolhera um vestido branco cintilante, decotado na frente e nas costas. Era um pouco ousado demais para o seu gosto, e foi exatamente por isso que o tinha escolhido. Ele a fazia se sentir audaciosa e linda. Além disso, ela dera um duro danado naquela série de exercícios idiotas para o casamento, então merecia usar um vestido sexy.
Tiras finas com apliques de pedras envolviam seu pescoço, descendo pelas costas até o vestido. Ele era acinturado, abrindo-se em camadas macias de chiffon a partir do quadril. Sua parte favorita era a camada de renda coberta de cristais, que ia dos seios até a barra do vestido. Ela se virou e sorriu para o espelho. A cauda de 1 metro estava acomodada ao seu redor. Selena suspirou. Estava perfeita. Se era assim, por que ainda estava nervosa? Cerrou os punhos ao lado do vestido. Então se lembrou de que aquilo o deixaria amassado, e soltou os dedos e começou a andar de um lado para outro em frente ao espelho.
— Nervosa, querida? — perguntou uma voz feminina e suave.
Selena olhou para a frente. Petunia estava parada à porta, esfregando as mãos.
— Hã, um pouquinho — admitiu Selena. Petunia assentiu.
— Consigo entender. Afinal de contas, é natural se preocupar com o que acontece na noite de núpcias.
— Ah... — Ela engoliu em seco. — Não é...
— Ah, eu sei. Conversa sobre esse assunto é algo muito frágil. E não sou a melhor pessoa para conversar sobre isso. Eu provavelmente levaria um taco de beisebol, ou algum outro objeto, para me defender, caso ele começasse a ficar atrevido demais. Dê-lhe umas belas porradas, isso vai ensinar a ele uma lição.
— Um taco? — Selena apertou os lábios.
— Acho que não será necessário e não estou nervosa com a noite de núpcias.
— Ah. — Petunia calou a noiva com um gesto, rindo. — Não tem problema estar nervosa, querida. Vou dizer uma coisa: basta chamar a tia Petunia aqui, caso meu sobrinho fique muito... — Ela corou e desviou os olhos. — Ah, você sabe. Se ele, se ele... — Ela apertou as mãos. — Se ele a machucar, só diga que não.
— Acho que Nick não me machucaria — respondeu Selena, com a voz calma, embora estivesse tentando não cair na gargalhada. — Afinal, ele é um cavalheiro.
— Ah, ele é um cavalheiro na cama. — Petunia assentiu. — E como é que você sabe disso?
Selena torceu para não parecer culpada. Petunia arregalou os olhos. Então vovó entrou.
— Petunia! Você não devia estar aqui.
— Estava dando conselhos preciosos.
— Sobre como continuar virgem, sem dúvida. — Vovó bufou. — Vá se arrumar para o casamento.
— Eu me recuso. — Petunia ergueu a cabeça. — Você já sabe a minha opinião a respeito de cores fortes.
Vovó fechou os olhos por um momento e apertou o ponto entre eles. Quando os abriu outra vez, até mesmo Selena recuou um passo.
— Você vai usar aquela droga de vestido e vai fazer isso sorrindo. Agora, vá se arrumar, ou... que Deus me perdoe!... vou drogar cada um dos seus gatos!
Petunia engasgou.
— Você não faria isso!
— Diga, como vai Garfield? Ora, ora, ele já está ficando velho! Seria uma pena se caísse das escadas ou se acidentalmente comesse algo que não devia.
Bufando e batendo os pés, Petunia saiu do quarto.
Vovó fechou a porta atrás dela e bateu as mãos como se tirasse alguma poeira. Enquanto ajeitava o blazer dourado, olhou para a noiva.
— Minha querida, qual o problema?
As lágrimas que Selena estivera segurando começaram a cair. Ela se jogou nos braços de vovó, dando soluços suaves.
— Ah, minha querida, não chore! Vovó está aqui, estou aqui com você. É perfeitamente normal estar com medo. Bem, os homens podem ser uns monstros terríveis! Fazem sons que nenhum ser humano devia fazer em público, se acham mais engraçados do que tudo e não entendem o conceito de lavar a louça...
Selena começou a soluçar.
— Ah, minha querida, mas são maravilhosos! Foram feitos para nós, sabia? Foram feitos para serem fortes no que somos fracas, capazes do que não somos, e para partilhar uma união tão mágica que você vai até se esquecer de como era antes de colocar o anel no dedo. Querida — vovó a fez se afastar e lhe entregou um lenço de papel —, o amor é mágico. E você, minha linda, está tão apaixonada! Dá para ver em cada gesto, em cada suspiro que você dá.
Selena limpou os olhos e controlou a respiração.
— Não é ele. — A noiva sacudiu a cabeça. — Nick é maravilhoso. E é incrível. Não é ele. Sou eu.
Vovó estava quieta, dando tapinhas nas mãos de Selena.
— Eu o amo tanto. Só queria que...
— O quê? — perguntou a velha senhora.
— Eu queria — os lábios de Selena tremiam — que meu pai estivesse aqui, que ele me levasse até o altar. Que minha mãe estivesse sentada na primeira fileira, sorrindo. Não sei... Só queria que eles pudessem me ver.
— Ah. — Vovó a puxou para um abraço. — Mas eles podem, querida! Eles podem vê-la! Eu não disse que o amor é mágico? Bem, imagino que o amor que você e Nick sentem um pelo outro tenha sido criado por Deus. E, se Deus está olhando por vocês, como é que isso não teria chamado a atenção dos seus pais? Tenho certeza de que eles estarão sentados na primeira fila, hoje à noite. O amor brilha bem forte. É como uma estrela no céu: é impossível não notar. É como o sol: é impossível não sentir. É como respirar, o que não se pode deixar de fazer. Ah, minha querida! O menor dos seus problemas é desejar que seus pais soubessem exatamente como será seu casamento, porque eles estão bem aqui. — Vovó tocou o peito de Selena. — E também estão aqui. — Ela pegou uma pequena caixa na bolsa e a colocou nas mãos da noiva. — Vá em frente, abra.
Tremendo, Selena abriu a caixa. Lá dentro, havia uma longa corrente de prata com um pingente oval. Com um puxão leve, o pingente se abriu e revelou uma foto dos pais de Selena.
— É a coisa velha para você usar no casamento — sussurrou vovó. — Está na minha família há muito tempo. Era da minha mãe, e da mãe dela, antes disso. — Vovó pegou o colar das mãos de Selena e abriu o fecho. — Quando ficar com medo, lembre-se de que seus pais nunca estarão longe... — Ela prendeu o colar no pescoço de Selena, e o pingente caiu bem entre seus seios. — Eles estão no seu coração.
Soluçando, Selena jogou os braços ao redor do pescoço de vovó e a abraçou com força. Nunca tinha esperado por algo assim. Era perfeito, e, de repente, parecia que um peso tinha saído de seus ombros. Ela se sentia viva outra vez, animada, pronta — e cansada de ser apenas Selena. Estava pronta para ser Selena Jonas.
— Eu te amo, vovó.
— Eu também te amo, querida. — Vovó suspirou. — Agora, vá retocar a maquiagem. Não queremos que pareça que você andou chorando.
Selena deu um beijo na bochecha da senhora e se levantou.
— Acho que um batom rosa vai ficar legal.
— Esta é a minha garota. — Vovó abriu a bolsa e pegou um batom. — Use-o com sabedoria. Me disseram que lábios cor-de-rosa também têm poderes mágicos.
— Ah, é? Quem disse?
— Bem, seu avô, que Deus o tenha, amava rosa. — Vovó se levantou e saiu do quarto.
— Que Deus a abençoe — comentou Selena, em voz alta. — E a mantenha viva para sempre... Sei que a quer, Senhor, mas não pode levá-la ainda.

*****